Por Herberson Sonkha

O artigo “Amazônia, uma outra concepção é possível”, de Lúcio Carril, cumpre um papel fundamental no debate público brasileiro ao deslocar o olhar sobre a Amazônia da lógica economicista para a afirmação de um “espaço de vida”. Esse conceito centraliza não apenas a crítica à exploração predatória, mas também a defesa de uma perspectiva histórica, cultural e social enraizada nos povos que habitam a região.

Ao longo do texto, Carril contrapõe a “velha política econômica produtivista e exploradora” a uma “outra concepção possível”. Essa oposição não é mera retórica: traduz a contradição entre o modelo capitalista de desenvolvimento dependente, que trata a Amazônia como reserva de recursos para a acumulação global, e as práticas sociais dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares, orientadas por solidariedade e não pelo lucro. Como observa Lenin, “o capitalismo não pode existir sem o constante alargamento da esfera da dominação do capital e das potências imperialistas” (LENIN, O Imperialismo, fase superior do capitalismo, 2012 [1917], p. 93). A Amazônia, nesse sentido, é hoje uma das principais fronteiras de expansão imperialista.

Carril mobiliza dados da Nova Cartografia Social e do IBGE para reforçar que a Amazônia não é um vazio, mas abriga mais de 27 milhões de habitantes, com centenas de povos indígenas e milhares de comunidades quilombolas. Essa pluralidade social se choca com a visão de que a região é apenas um “mancha de potencial econômico” pronta para ser apropriada. Milton Santos já advertia que o espaço não pode ser reduzido a mercadoria, mas deve ser compreendido como a articulação de sistemas de objetos e ações (SANTOS, A Natureza do Espaço, 2006 [1996], p. 63). A crítica de Carril reafirma essa concepção, evidenciando que a Amazônia é território de vida e de cultura, e não apenas de negócios.

A denúncia histórica é outro ponto crucial: Carril lembra que desde a chegada do colonizador “só destruição foi feita”. Essa leitura ecoa a análise de Caio Prado Júnior, que via na colonização brasileira uma empresa voltada “para fora, em função da metrópole, como simples empresa mercantil” (PRADO JÚNIOR, Formação do Brasil Contemporâneo, 2000 [1942], p. 24). A Amazônia foi, e continua sendo, tratada como colônia interna, subordinada à lógica da exportação de matérias-primas — primeiro as drogas do sertão, depois a borracha, agora minérios, soja e energia.

Exemplos contemporâneos reforçam essa continuidade. A construção da usina de Belo Monte, sob o discurso do “desenvolvimento”, resultou em remoções forçadas, destruição ambiental e agravamento de desigualdades. A Zona Franca de Manaus, embora tenha gerado empregos industriais, não rompeu a dependência tecnológica e segue subordinada ao capital transnacional. A expansão da mineração em terras indígenas repete a lógica colonial de saque, com impactos ambientais irreversíveis e violência contra comunidades. Esses processos materializam o que Ruy Mauro Marini conceituou como “superexploração da força de trabalho” nas economias dependentes (MARINI, Dialética da Dependência, 2000 [1973], p. 85).

O núcleo do artigo, porém, está na afirmação insistente: “A Amazônia é um espaço de vida”. Essa definição reorienta a análise para além da economia capitalista e resgata a totalidade social. István Mészáros alerta que “a reprodução social não pode ser reduzida aos imperativos do capital, mas deve ser pensada como totalidade da vida humana” (MÉSZÁROS, Para Além do Capital, 2002, p. 85). Carril traduz essa tese no plano concreto da Amazônia, ao defender que qualquer projeto só terá sentido se respeitar os modos de vida dos povos.

Ao contrapor solidariedade ao lucro, Carril não apenas denuncia o capitalismo, mas afirma valores alternativos já existentes.

Esse ponto é decisivo: longe de propor uma utopia abstrata, o autor identifica nas práticas sociais amazônicas — da pesca artesanal ao extrativismo sustentável, da roça comunitária ao mutirão — elementos de uma racionalidade não capitalista. É nesse sentido que Marx afirmava: “o comunismo não é um estado que deve ser instaurado, mas o movimento real que suprime o estado atual de coisas” (MARX; ENGELS, A Ideologia Alemã, 2007 [1846], p. 37). A Amazônia, como espaço de vida, contém em si formas de sociabilidade que apontam para além do capital.

Carril encerra seu artigo com um apelo direto ao governo Lula e aos governos estaduais, denunciando o uso da região como “cartão de visita” e exigindo políticas públicas estruturantes. Aqui ecoa a crítica de Florestan Fernandes, para quem a democracia no Brasil sempre se mostrou “autoritária e excludente” diante das classes populares (FERNANDES, A Revolução Burguesa no Brasil, 2005 [1974], p. 298). Carril rompe com o discurso vazio e exige ação concreta: demarcação de terras indígenas e quilombolas, políticas de saúde e educação interculturais, apoio à agricultura familiar, valorização da sociobiodiversidade.

A avaliação marxista do artigo de Carril só pode ser positiva. Seu texto é um chamado à reorganização radical da reprodução social na Amazônia, onde a economia se subordine à vida e não à acumulação. Como lembra Marx, “a riqueza das sociedades onde domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’” (MARX, O Capital, Livro I, 2013 [1867], p. 113). Carril inverte esse axioma ao afirmar que a verdadeira riqueza da Amazônia está em seus povos, culturas e modos de vida.

Concluir afirmando que “a Amazônia é um espaço de vida” não é apenas retórica: é uma tese política e histórica que coloca a região no centro da luta contra o imperialismo, pela soberania popular e por uma sociedade fundada na solidariedade. Cabe às forças progressistas, aos movimentos sociais e à esquerda brasileira assumir esse horizonte. Como ensinou Lenin, “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário” (LENIN, Que Fazer?, 2010 [1902], p. 27). O artigo de Carril contribui para essa teoria viva e nos lembra que a Amazônia não é mercadoria, mas horizonte de emancipação.

Referências

FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2005 [1974].

HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004.

LENIN, V. I. Que Fazer?. São Paulo: Boitempo, 2010 [1902].

LENIN, V. I. O Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Centauro, 2012 [1917].

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis: Vozes, 2000 [1973].

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013 [1867].

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007 [1846].

MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2002.

POLANYI, Karl. A Grande Transformação. Rio de Janeiro: Campus, 2000 [1944].

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 [1942].

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2006 [1996].

  • Herberson Sonkha é um homem negro trabalhador, comunista e candomblecista. Professor em cursinho pré-vestibular voltado para a juventude negra, é militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e da Frente Negra Revolucionária (FNR). Graduando em Economia pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), atua como pesquisador marxista no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trabalho, Política e Sociedade (NETPS/UESB). É também blogger, colunista do jornal Conquista Repórter, poeta, compositor e escritor, com produção marcada pelo compromisso com as questões de classe, raça e gênero, valorizando a cultura negra e a luta contra o racismo.