Por Plinio Cesar A. Coèlho
A política externa dos Estados Unidos em relação à América Latina durante a administração de Donald Trump ressuscitou, de forma agressiva e distorcida, os piores aspectos da Doutrina Monroe. Longe de ser um pacto de proteção hemisférica, essa abordagem se manifestou como uma estratégia de coerção unilateral e de instrumentalização geopolítica, utilizando questões cruciais como a migração e o narcotráfico como meros pretextos para afirmar a hegemonia de Washington e garantir interesses econômicos e de segurança internos.
O Desrespeito à Soberania: México e Colômbia como Instrumentos
A prática da “Doutrina Monroe de Trump” tratou as nações vizinhas, como o México e a Colômbia, não como parceiros soberanos, mas como extensões do aparato de segurança e controle migratório dos EUA.
No caso do México, o enfoque foi de clara chantagem econômica. A insistência na construção do muro de fronteira e as repetidas ameaças de imposição de tarifas punitivas transformaram o país em um instrumento de segurança interna americana. O México foi coercitivamente forçado a policiar sua própria fronteira sul e a assumir o ônus de deter e processar fluxos migratórios (política de “terceiro país seguro”), ignorando sua soberania e transferindo o fardo humanitário e logístico para uma nação em desenvolvimento.
A Colômbia, embora tradicionalmente um aliado próximo, também foi alvo de pressões para alinhar-se inequivocamente à política de “América Primeiro”. A exigência de lealdade e a pressão contínua para erradicar plantações de coca de forma unilateral demonstram a persistência de uma mentalidade onde os interesses de segurança de Bogotá são secundários aos interesses domésticos de Washington.
A Cúpula da Intervenção: Venezuela e a Geopolítica do Petróleo
O caso da Venezuela representa a aplicação mais extrema e perigosa dessa doutrina, onde a retórica do narcotráfico serve abertamente como um disfarce para a ambição geoeconômica e a mudança de regime.
A declaração do regime de Nicolás Maduro como um “Estado narcoterrorista” e a mobilização de forças militares no Caribe são vistas por críticos como um ressurgimento da mentalidade de “Big Stick” (Grande Porrete). No entanto, o verdadeiro objetivo estratégico não é o combate às drogas – já que a Venezuela não é um grande produtor de cocaína – mas sim a desestabilização e o controle das maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo. As sanções econômicas foram estrategicamente desenhadas para paralisar a indústria petrolífera venezuelana, a espinha dorsal do país, forçando o colapso do governo e, consequentemente, abrindo o caminho para um rearranjo político-econômico favorável a Washington e seus conglomerados empresariais.
A Hipocrisia das Drogas e a Crise do Fentanil
Essa agressiva externalização do combate às drogas expõe uma profunda contradição moral e política: se o objetivo primordial da administração Trump fosse, de fato, salvar vidas e combater o flagelo das drogas, a atenção e os recursos militares deveriam ser primariamente direcionados para a crise interna do fentanil e dos opioides sintéticos que está matando precocemente a juventude americana (menores de 50 anos) em taxas epidêmicas. Ao invés disso, a retórica do narcoterrorismo é seletivamente aplicada contra o adversário geopolítico (Venezuela), enquanto o foco principal da crise de saúde pública que devasta o tecido social americano (opioides) é desviado para a política de fronteira, confirmando que a Doutrina Monroe moderna é primariamente uma ferramenta de hegemonia e intervenção geoeconômica, e não um genuíno esforço humanitário.
Conclusão: Uma Doutrina de Coerção
A abordagem de Donald Trump na América Latina deve ser criticada não como uma reafirmação da Doutrina Monroe de 1823, mas como uma modernização da lógica imperialista e unilateralista que ela inspirou. Esta política se manifestou através da coerção econômica, da politização da imigração e da exigência de subserviência aos interesses domésticos dos EUA, minando a autonomia e a estabilidade democrática das nações vizinhas. É uma política que trata a América Latina não como um hemisfério de parceiros, mas como um tabuleiro de xadrez onde a soberania é secundária à ambição hegemônica de Washington.


