Por Plínio Cesar A Coêlho
Enquanto bombardeios atingem o Irã numa escalada militar patrocinada por Israel e Estados Unidos, a grande imprensa brasileira mais uma vez cumpre seu papel histórico: caixa de ressonância dos interesses imperialistas. A mesma ladainha de sempre é entoada nos telejornais e portais: os ataques seriam questão de “segurança nacional” de Israel e, por extensão, dos Estados Unidos.
Segurança de quê? Onde está a arma nuclear iraniana que ameaça o território americano? Que míssil fabricado em Teerã tem alcance para atingir Washington? A resposta é simples: não existe. Nunca existiu. O que existe é a repetição acrítica de um discurso bélico fabricado nos think tanks financiados pelo complexo militar-industrial e reproduzido obedientemente por jornalistas que confundem profissão com lacaiagem.
A farsa da “ameaça iminente”
O Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear desde 1970 e submete seu programa às inspeções da AIEA. Recentemente, novas fiscalizações ocorreram nas usinas de enriquecimento de urânio iranianas, e nada foi encontrado que indicasse desvio para fins bélicos. O programa nuclear iraniano, assim como o brasileiro, é legal, monitorado e tem finalidades pacíficas.
Mas a grande mídia brasileira não tem interesse nesses fatos. O que interessa é vender a narrativa do “eixo do mal”, enquanto Israel — potência nuclear não signatária do TNP e com arsenal estimado em 90 ogivas — segue imune a qualquer questionamento.
O verdadeiro objetivo: mudança de regime
No fundo, o que está em jogo nunca foi “segurança” — é a velha política de mudança de regime imposta pelo imperialismo estadunidense. Trump e seus aliados desejam acabar com o regime dos aiatolás e recolocar no poder uma marionete a serviço de Washington, nos moldes do que foi a família Pahlavi antes da Revolução de 1979. Reza Pahlavi, o autoproclamado “príncipe herdeiro”, vive exilado nos EUA há décadas, frequentemente recebido por think tanks neoconservadores.
A ideia é simples: transformar o Irã num país subserviente, assim como tentaram fazer com a Venezuela ao apoiar Juan Guaidó, e como continuam tentando com qualquer nação que ouse desafiar a hegemonia ianque. Não por acaso, vemos Trump ameaçar Colômbia, México e outros países latino-americanos que não se dobram aos seus caprichos. A doutrina é a mesma: quem não se curva, sofre sanções, ameaças, intervenção.
O episódio GloboNews: quando o jornalismo é censurado
Recentemente, o correspondente Guga Chacra, em entrevista com o embaixador de Israel no Brasil, ousou fazer perguntas que qualquer jornalista deveria fazer: “Por que Israel tem bomba atômica e o Irã não?” e “O mundo não estava mais seguro quando havia o acordo com o Irã, que foi sabotado por Trump e Israel?”.
A entrevista foi ao ar e rapidamente desapareceu das plataformas da emissora. Sem explicações, sem nota oficial. Nas redes sociais, a hashtag #GloboCensura chegou aos trending topics. A conclusão é inevitável: a grande imprensa brasileira não apenas reproduz a propaganda de guerra, como silencia qualquer voz que ouse desafiá-la.
Dois pesos, duas medidas
A grande mídia brasileira opera com base em tipificações que servem para justificar o imperialismo. Israel pode bombardear hospitais e escolas em Gaza porque estaria combatendo o “terrorismo”. Os EUA podem atacar a Venezuela porque precisam tirar o “ditador Maduro” do poder. Jamais se mencionam os interesses no petróleo venezuelano ou na reconfiguração geopolítica do Oriente Médio.
Quando a notícia envolve o Irã, a manipulação lexical atinge níveis grotescos. Para os arautos do alinhamento automático, qualquer informação que contextualize a posição iraniana é automaticamente classificada como “antissemitismo” ou “apoio ao terrorismo”.
O massacre de civis
Enquanto a mídia brasileira repete a narrativa oficial, a tragédia humana se acumula. Dados colhidos até 3 de março de 2026 indicam que os ataques coordenados por Trump e Netanyahu já mataram pelo menos 742 civis iranianos, entre eles 176 crianças. O ataque à Escola Primária Shajareh Tayeebe, para meninas, na cidade de Minab, assassinou dezenas de crianças enquanto estavam em sala de aula. Mochilas ensanguentadas e cadernos espalhados pelos escombros são a prova incontestável de que não se trata de um “conflito”, mas de um massacre promovido por criminosos de guerra.
A tradição entreguista
Não é de hoje que os grandes conglomerados de comunicação no Brasil atuam como prepostos do imperialismo. Durante a Guerra Fria, serviram de porta-vozes da Doutrina de Segurança Nacional. Nos anos recentes, abraçaram sem pudor a causa bolsonarista de alinhamento automático com Trump e Netanyahu. Hoje, mesmo sob um governo Lula que busca reconstruir a tradição diplomática brasileira, as redações continuam operando como se funcionassem em Washington ou Tel Aviv.
Conclusão
O ataque ao Irã não tem qualquer justificativa legítima no direito internacional. Viola a soberania de uma nação, desrespeita as inspeções da AIEA e massacra população civil. A grande imprensa brasileira, ao repetir a narrativa da “segurança americana” e da “ameaça iraniana”, não apenas mente — torna-se conivente com crimes de guerra.
É hora de chamar as coisas pelos nomes. Esses jornalistas e veículos não são “isentos”. São lacaios do imperialismo, repetidores de propaganda de guerra, subordinados aos interesses estrangeiros que sempre ditaram os rumos da política externa dos Estados Unidos e de Israel.
O Brasil tem posição histórica em favor do direito internacional e da solução diplomática dos conflitos. A grande imprensa brasileira faz o possível para sabotar essa posição e nos arrastar ao coro dos belicistas. Cabe a nós buscar informação de qualidade e denunciar a manipulação descarada que ainda domina as redações.
Enquanto isso, os bombardeios continuam. E a mídia, como sempre, aplaude.
Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.


