A recente alta da gasolina em Manaus, que atingiu R$ 7,29 por litro, reacendeu o debate público sobre suas causas. Dados divulgados por portais de notícia, com base em levantamento do Procon Manaus, vinculado à Prefeitura de Manaus, indicam aumento de R$ 0,30 em relação ao mês anterior — uma variação aproximada de 4,3% — com preços oscilando entre R$ 6,99 e R$ 7,29.

Apesar disso, parte do debate político tem atribuído a alta ao governo federal, sob a alegação de aumento de impostos — o que não se sustenta. A tributação sobre combustíveis é majoritariamente composta pelo ICMS, de competência estadual, e não houve elevação recente de tributos federais que justifique o movimento observado.

Também não se sustenta a tentativa de responsabilizar a Petrobras. Não houve majoração recente de preços por parte da estatal que explique o aumento verificado em Manaus. Da mesma forma, tensões geopolíticas, como conflitos envolvendo o Irã, podem influenciar o preço internacional do petróleo, mas não explicam, isoladamente, a variação local.

O ponto central, ignorado por críticas seletivas, está na estrutura do mercado regional. A antiga refinaria de Manaus, hoje Refinaria da Amazônia (REAM), foi privatizada em 2022, durante o governo Bolsonaro. A medida foi defendida sob o argumento de aumento de eficiência e redução de preços — premissas que não se confirmaram.

Do ponto de vista econômico, houve a substituição de um monopólio público por um monopólio privado regional. Em um mercado com apenas uma refinaria e elevadas barreiras logísticas à entrada de concorrentes, a competição efetiva é limitada, criando condições para extração de margens elevadas.

Do ponto de vista da teoria econômica, essa dinâmica pode ser interpretada à luz do conceito de rent-seeking. Conforme desenvolvido por Gordon Tullock e Anne Krueger, o rentismo ocorre quando agentes econômicos obtêm ganhos não por aumento de eficiência produtiva, mas pela exploração de posições privilegiadas de mercado, como monopólios ou estruturas com baixa concorrência. Nesse contexto, parte relevante da lucratividade não decorre de ganhos de produtividade, mas da capacidade de apropriação de rendas associadas ao poder de mercado.

Os dados ajudam a dimensionar o problema: segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis e a Federação Única dos Petroleiros, após a privatização, o volume de refino caiu cerca de 69,3%, o fator de utilização despencou de 70% para aproximadamente 20%, e as importações de derivados cresceram cerca de 143,9%.

O resultado é um arranjo economicamente contraditório: o petróleo de Urucu é enviado para outras regiões, enquanto combustíveis são importados para abastecer Manaus, elevando custos logísticos e reduzindo eficiência.

Nesse ambiente, atribuir a alta de preços exclusivamente ao governo atual, à Petrobras ou ao cenário internacional ignora fatores estruturais e reforça o mito daprivatização.
Uma análise consistente exige reconhecer que decisões passadas, especialmente a privatização no governo Bolsonaro, continuam produzindo efeitos no presente. O restante é conveniência política travestida de explicação econômica.

Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.

Fontes
Prefeitura de Manaus / Procon Manaus
Portais de notícia locais (março de 2026)
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
Federação Única dos Petroleiros
Petrobras