O Tesouro Nacional realizou uma série de recompras de títulos públicos sem precedentes nos últimos dias, totalizando R$ 43,6 bilhões em um período de apenas 48 horas. A ação visa conter a volatilidade nos juros futuros, que tem sido pressionada por incertezas tanto no cenário internacional quanto no doméstico.
Este volume representa a maior intervenção no mercado de títulos públicos em mais de dez anos, superando até mesmo as operações realizadas durante o período mais agudo da pandemia de covid-19, quando foram recomprados R$ 35,56 bilhões ao longo de 15 dias. As operações mais recentes incluíram R$ 9,05 bilhões em títulos prefixados e R$ 7,07 bilhões em papéis atrelados à inflação em um único dia, após uma primeira etapa de R$ 27,5 bilhões no dia anterior.
Análises de mercado indicam que a escala atual das intervenções também é superior a momentos de turbulência anteriores, como as manifestações de 2013 e a greve dos caminhoneiros de 2018. O objetivo principal do Tesouro é estabilizar a curva de juros, que serve de referência para as expectativas em relação à taxa Selic, os juros básicos da economia.
A recente elevação das taxas de juros foi impulsionada principalmente pela escalada do conflito no Oriente Médio e pelo consequente aumento nos preços do petróleo, fatores que acentuam o risco inflacionário. Paralelamente, incertezas internas, como a possibilidade de uma nova paralisação de caminhoneiros, também contribuem para o cenário de instabilidade.
A forte atuação do Tesouro ocorre em uma semana crucial, marcada pela decisão de política monetária do Comitê de Política Monetária (Copom). Tradicionalmente, o órgão evita grandes intervenções nesse período para não gerar percepções de influência sobre as decisões do Banco Central. A curva de juros futuros é um termômetro importante para as projeções do Copom, que nesta semana deve decidir sobre o ritmo de cortes na taxa Selic.
Especialistas apontam que a estratégia mais agressiva adotada pelo Tesouro pode ser uma tentativa de prevenir disfunções de mercado mais graves no futuro, em contraste com reações mais tardias observadas em períodos anteriores de estresse, como em dezembro de 2024. A continuidade dessas intervenções dependerá das condições de mercado e da avaliação do próprio órgão.
Apesar das ações do Tesouro, o mercado continuou sob pressão. A ameaça de uma nova greve de caminhoneiros, noticiada pela imprensa, aumentou a percepção de risco no final do dia, evocando memórias dos impactos econômicos de 2018, como a alta da inflação e a pressão sobre as contas públicas. No fechamento, a taxa de juros para janeiro de 2027 subiu para 14,13% ao ano, enquanto os vencimentos mais longos mantiveram-se estáveis. No mercado de câmbio, o dólar reduziu suas perdas e a bolsa de valores diminuiu os ganhos.


