As chuvas intensas que vêm atingindo Manaus nas últimas semanas reacenderam um problema histórico que atravessa décadas: os alagamentos recorrentes em diferentes zonas da cidade, impulsionados por um processo contínuo de ocupação irregular e aterro de igarapés.

Bairros das zonas Leste, Norte, Sul e Oeste registram pontos críticos de inundação sempre que o volume de chuva aumenta.

Regiões próximas ao igarapé do 40, na zona Sul, ao igarapé do Passarinho, na zona Leste, áreas da Compensa, na zona Oeste, e trechos do Parque 10 de Novembro, na zona Centro-Sul, enfrentam transbordamentos que invadem ruas, residências e comércios, trazendo prejuízos materiais e riscos à saúde pública.

Especialistas ouvidos pelo portal apontam que a raiz do problema remonta às décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000, período marcado por forte crescimento populacional e expansão urbana desordenada.

Nesse contexto, áreas de preservação permanente foram ocupadas de forma irregular, com o aterramento de igarapés para dar lugar a moradias. Esses cursos d’água, essenciais para o escoamento natural das chuvas na região amazônica, tiveram sua capacidade reduzida ou completamente eliminada.

DIFERENTES GESTÕES

O processo ocorreu ao longo de diferentes gestões estaduais e municipais, incluindo períodos sob liderança do Gilberto Mestrinho, de Amazonino Mendes, de Eduardo Braga e Omar Aziz. Embora cada administração tenha adotado políticas próprias de urbanização, críticos apontam que faltou planejamento de longo prazo e fiscalização efetiva para conter ocupações em áreas vulneráveis.

Com a impermeabilização do solo e o desaparecimento de canais naturais de drenagem, a água da chuva passou a encontrar barreiras para seu escoamento, acumulando-se rapidamente em vias urbanas.

O resultado são cenas que se repetem ano após ano: famílias desalojadas, trânsito colapsado e aumento de doenças relacionadas à água contaminada.

FENÔNEMOS CLIMÁTICOS EM ESCALA GLOBAL

Além dos fatores locais, especialistas alertam que o agravamento das chuvas está diretamente relacionado ao fenômeno das mudanças climáticas, que vêm alterando padrões meteorológicos em escala global.

Em diferentes continentes, eventos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos: enchentes históricas na Europa, ondas de calor recordes na Ásia, secas severas na África e furacões mais destrutivos na América do Norte.

Na região amazônica, esse cenário se traduz em chuvas mais concentradas em curtos períodos, elevando o risco de alagamentos urbanos, especialmente em cidades com infraestrutura deficiente. O aumento da temperatura global contribui para maior evaporação e, consequentemente, para precipitações mais intensas.

Moradores das áreas afetadas relatam que o problema se agrava a cada inverno amazônico. “Quando começa a chover forte, a gente já sabe que vai perder móveis e ficar ilhado”, conta uma moradora da zona Leste, que prefere não se identificar.

Nos últimos anos, obras de drenagem e contenção foram anunciadas por diferentes gestões, mas especialistas alertam que soluções pontuais não são suficientes diante da complexidade do problema.

A recuperação de igarapés, o reassentamento de famílias em áreas de risco e o investimento em infraestrutura urbana sustentável são apontados como medidas essenciais para mitigar os impactos.

Enquanto isso, a população segue convivendo com os efeitos de decisões urbanísticas do passado somadas a um novo desafio global.

Em Manaus, a combinação entre crescimento desordenado e os impactos das mudanças climáticas intensifica um cenário onde eventos extremos deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina da cidade

PROSAMIM E LIXO

O projeto Prosamim, que visava retirar pessoas de áreas de risco e de constante alagamentos, patrocinado em parte pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), fundado em 1959, como principal fonte de desenvolvimento econômico social e institucional na América Latina, conseguiu resolver um problema, mas criou outro.

O projeto desenvolvido em Manaus, ocupou áreas alagadas que foram aterradas e serviram de local para a construção de complexos de moradias populares.

A ideia inicial era recuperar os igarapés poluídos, o que não foi feito. Um exemplo foi o Igarapé do 40, na zona centro Sul, onde há pontos de transbordamento, uma vez que o igarapé foi canalizado e não comporta a quantidade de água nas fortes chuvas.

Na Compensa, outra área de invasão, o igarapé também foi canalizado e hoje transbordas com o volume de chuva no inverno.

ECO BARREIRAS

O lixo jogado pela população nos igarapés e nas ruas ou lixeiras viciadas na periferia, também contribuem para o problema em Manaus. Na artual administraçao municipal, o prefeito de Manaus, David Almeida, criou as chamadas Eco-barreiras. O projeto tem conseguido evitar que toneladas de lixos jogados nos igarapés chegeum nos rio Negro, mas é preciso um trabalho de conscientização eficaz dos moradores de áreas de igarapés.

Neste ano, haverá eleição e o próximo governador tem que lidar com esse grande problema e apresentar a população uma solução urgente.

Nesta quarta-feira, 25, a forte chuva que castigou Manaus, causou transtornos e prejuízos aos moradores de áreas afetadas pela tempestade. A prefeitura faz o que pode para amenizar o problema, mas o próximo governador terá que investir e priorizar soluções para milhares de moradores que moram em áreas de risco em Manaus.