O Supremo Tribunal Federal é o mais recente alvo dos ataques da direita
brasileira. Se colocarmos os fatos dentre um contexto correto, é natural que assim
ocorra. Afinal de contas foi no poder judiciário, como um todo, que as forças do
obscurantismo encontraram resistência intransponível aos projetos que, todos eles e de
uma forma ou de outra, buscaram solapar as bases da nossa democracia burguesa. Não é
possível esquecer, por exemplo, o comportamento da Polícia Rodoviária Federal
durante o segundo turno da eleição presidencial de 22. Ônibus transportando eleitores
para seções onde o candidato oposicionista havia obtido maciça votação na primeira
fase do pleito foram simplesmente impedidos de trafegar, configurando um claro
cerceamento ao exercício de um direito eleitoral. Ora, foi a ação firma do Tribunal
Superior Eleitoral que pôs cobro a essa atitude muito pouco republicana. À frente dessa
corte se achava o ministro Alexandre de Moraes que, desde então, passou a ser visto
pelos negacionistas como a própria encarnação do satanás.
As tentativas de fraudar e/ou anular o pleito foram afastadas com firmeza
e o restante do processo se desenrolou dentro das regras, com a diplomação e a posse
dos eleitos. A direita jamais conseguiu digerir desse fato primário, apesar de sua
singeleza e de seu caráter absolutamente natural. Não foi à toa, nem por coincidência,
que logo no 8 de janeiro, uma semana apenas após a assunção dos novos governantes, o
país assistiu estarrecido ao desenrolar dos episódios de pilhagem e degradação moral
ocorridos na esplanada dos ministérios, em Brasília.
Era a primeira manifestação concreta, visível e palpável de um plano
golpista, que começou a ser urdido ainda quando Bolsonaro, sem se conformar com a
manifestação da vontade popular, continuava a praticar desmandos e besteiras no
Palácio do Planalto. Na sua irrefreável insanidade, a ele não lhe bastou a atitude
irresponsável e criminosa com que dirigiu a nação durante os terríveis tempos da
pandemia de covid. Não lhe foi suficiente a morte de mais de setecentos mil brasileiros.
Nada disso. Queria, a qualquer custo, prolongar sua permanência no poder, ao fito de
dar sequência ao rosário de monstruosidades e inconveniências com que marcou os
quatro anos mais cruéis da história brasileira.
Ora, lembremo-nos de que essa insaciável sede de poder a qualquer custo
foi esbarrar, de novo, no judiciário, desta vez na mais alta corte. Com precisão cirúrgica,
Alexandre de Moraes (ele, novamente) comandou o processo penal que se instaurou a
partir da denúncia formulada pela Procuradoria Geral da República. As normas do
devido processo legal jamais foram tangenciadas, tendo sido realizadas audiências mais
que públicas, uma vez que transmitidas pela televisão para todo o país. O direito de
defesa foi exercido com plenitude e o povo teve oportunidade de ver alguns dos
melhores profissionais da advocacia desempenhando brilhantemente seu múnus. Mas
eram esmagadoras as provas do comportamento criminoso dos acusados e o resultado
não poderia ser outro: com apenas um voto (ridículo, diga-se de passagem) em
contrário, o tribunal decidiu pela condenação dos réus. Superada a fase recursal,
impunha-se o cumprimento do decisório e, um a um, os membros da organização
criminosa mais elitizada de que se tem notícia, começaram a ser encaminhados para as
prisões, onde devem continuar a cumprir as penas de reclusão que lhes foram impostas.
Não é, portanto, razoável pretender que, assim duramente atingida, a
direita olhe com simpatia para o Supremo Tribunal Federal. Exímios elaboradores de
notícias falsas, os integrantes dessa facção política vão se esmerar na campanha de
desmoralização da Suprema Corte. As vidas particulares de seus ministros vão ser
reviradas, injúrias e difamações serão propagadas em alto e bom tom. É uma tática sem
qualquer laivo de ética ou de decência. Muito apropriada, todavia, para uma gente que
canta hino para pneu, invoca Ets e insiste em negar a curvatura da terra. Como dizia
minha avó: “quem nasce para lagartixa não chega a jacaré”. Nem tomando vacina.


