A discussão sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil, que avança no Congresso Nacional, tem gerado intensos debates entre economistas e pesquisadores sobre seus potenciais efeitos na economia. A proposta central é o fim da escala de trabalho de seis dias seguidos por um de descanso (6×1), mas as projeções sobre o impacto no Produto Interno Bruto (PIB) e na inflação divergem significativamente.
Por um lado, entidades representativas do setor empresarial, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), alertam para possíveis consequências negativas. Estudos dessas confederações projetam uma queda no PIB, com a CNI estimando uma perda de R$ 76 bilhões (0,7% do PIB nacional) e um impacto de 1,2% na indústria. A CNC prevê um aumento de 21% nos custos com a folha de pagamento e um repasse de até 13% nos preços ao consumidor. A CNI aponta para uma alta média de preços de 6,2%.
Em contrapartida, análises de instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentam um cenário distinto. Essas pesquisas sugerem que os impactos econômicos podem ser limitados a setores específicos, com potencial para a criação de mais empregos e até mesmo um aumento do PIB. Segundo o Ipea, o aumento no custo das empresas com trabalhadores não ultrapassaria 10% nos setores mais afetados, e o impacto no custo total das empresas seria de até 6,6%. O estudo aponta que a maioria dos setores produtivos teria capacidade de absorver esses custos, com exceção de microempresas que poderiam necessitar de apoio estatal.
A economista Marilane Teixeira, da Unicamp, argumenta que a divergência nas projeções se deve a uma perspectiva política, e não puramente técnica. Ela critica modelos que assumem uma redução automática da produção e renda com a diminuição das horas trabalhadas, ignorando ajustes dinâmicos do mercado. Para ela, a resistência empresarial a mudanças pode gerar projeções alarmistas, pois os empresários tendem a focar em seus negócios individuais em vez da economia como um todo.
Felipe Pateo, economista do Ipea, questiona os altos percentuais de aumento de custo do trabalho apresentados pela CNC, afirmando que matematicamente o aumento não deveria exceder 10%. Ele também minimiza o impacto inflacionário, sugerindo que empresários podem absorver custos com redução de lucros e que o aumento de 1% no custo operacional, se repassado integralmente, resultaria em um aumento de apenas 1% no preço do produto. Marilane Teixeira reforça que não há risco de aumento generalizado de preços, comparando a situação com aumentos do salário mínimo, que não geram inflação exponencial, e destacando a capacidade ociosa da economia e a concorrência entre empresas.
Estudos históricos, como o realizado após a redução da jornada de 48 para 44 horas em 1988, não identificaram efeitos negativos no emprego. No entanto, a CNI contesta a comparação, argumentando que a economia globalizada e digital de hoje é muito diferente daquela época, tornando a absorção de custos mais complexa. As divergências nas projeções são atribuídas às diferentes premissas e modelos utilizados pelos pesquisadores, refletindo visões distintas sobre os ganhos de produtividade e a distribuição de renda.


