Matéria Especial – Enquanto consolida sua posição como principal potência econômica da Região Norte, Manaus vive uma realidade contraditória que preocupa especialistas, autoridades e a população. Ao mesmo tempo em que a capital amazonense contribui para o crescimento econômico do estado, impulsionada pelo Polo Industrial de Manaus (PIM), o município enfrenta o avanço visível da dependência química em áreas centrais e periféricas da cidade e na maioria dos municípios.
Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti) mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) do Amazonas alcançou R$ 187,10 bilhões em 2025, registrando crescimento real de 4,41% em comparação com o ano anterior.
O desempenho reforça a importância de Manaus como centro econômico, industrial e logístico da Amazônia brasileira, concentrando a maior parte da riqueza produzida no estado.
Por trás dos números positivos da economia, porém, surge uma realidade social cada vez mais visível nas ruas da capital.
Em diversos pontos da cidade, especialmente em áreas centrais, próximas a igarapés, prédios abandonados, viadutos e regiões comerciais, aumentou a presença de pessoas em situação de vulnerabilidade social e dependência química.
Muitos desses ‘usuários’ de drogas distribuídas pelas facções criminosas, Comando Vermelho (VC) e Primeiro Comando da Capital (PCC), vivem em condições precárias, sem acesso regular à saúde, alimentação adequada ou programas permanentes de recuperação.
É uma legião de ‘invisíveis’, homens, mulheres, jovens e até famílias inteiras vivendo como ‘zumbis’, todas vítimas do descaso e da ‘incompetência’ dos governos em combater o narcotráfico e seus tentáculos que atingem milhões de cidadãos e famílias em todo o Brasil.
‘CRAC’ DISTRIBUÍDO A TODA HORA
Entre as drogas consumidas, o crack — conhecido popularmente entre usuários como “pedra” — continua sendo uma das substâncias mais devastadoras. Em Manaus, recente caso muito divulgado nas redes sociais, flagrou traficantes distribuindo a droga em uma fila nas proximidades do Mercado Municipal, na orla do rio Negro, no centro histórico da capital.
Especialistas em saúde pública alertam que a droga possui alto potencial de dependência e provoca rápida deterioração física, psicológica e social dos usuários.
A cena se repete diariamente em diferentes bairros da capital. Grupos de dependentes ocupam calçadas, praças, áreas abandonadas e espaços públicos, transformando regiões inteiras em verdadeiros pontos de consumo aberto de entorpecentes.
Moradores e comerciantes relatam aumento da sensação de insegurança, furtos, degradação urbana e conflitos relacionados ao uso de drogas.
VITIMAS NOS MUNICÍPIOS ATENDIDAS EM MANAUS
O problema não está restrito apenas aos usuários locais. Profissionais que atuam na assistência social afirmam que Manaus passou a receber pessoas vindas de municípios do interior e até de estados vizinhos, atraídas pela concentração de serviços públicos, oportunidades informais de sobrevivência e pela própria dinâmica urbana da capital.
O Centro de Reabilitação em Dependência Química (CRDQ) Ismael Abdel Aziz, do Governo do Amazonas localizado na rodovia AM-010, tem pessoas, homens e mulheres internados de vários municípios. A maioria se tratando de dependência química (cocaína e crac).
Especialistas apontam que o fenômeno não pode ser analisado apenas como questão policial. Para a maioria, trata-se de uma crise que envolve saúde pública, assistência social, geração de emprego, habitação e segurança. A ausência de políticas integradas de prevenção e recuperação acaba alimentando um ciclo difícil de romper.
CONTRASTES QUE PRECISAM SER EQUACIONADOS
O contraste entre o crescimento econômico e o aumento da vulnerabilidade social chama atenção.
De um lado, uma cidade que movimenta bilhões de reais por ano, abriga o maior parque industrial da Amazônia e lidera indicadores econômicos da região. Do outro, pessoas vivendo à margem do desenvolvimento, consumidas pela dependência química e invisíveis para boa parte da sociedade.
Para especialistas de segurança e da sa, o desafio das próximas décadas será fazer com que os resultados positivos da economia se transformem também em melhorias concretas na qualidade de vida da população.
Caso contrário, Manaus corre o risco de continuar convivendo com um cenário paradoxal. Ou seja, uma metrópole que cresce nos indicadores econômicos enquanto vê aumentar, nas ruas, os sinais de uma profunda crise social.
REALIDADE EM VÍDEOS E FOTOS


A reportagem do portal percorreu em dias e horários alternados, as principais avenidas e área periférica da cidade, além de áreas comerciais, praças e espaços públicos e registrou o ‘estrago’ social que as drogas fazem, tudo causado pelas facções criminosas que faturam alto com a ‘desgraça’ alheia.
O cenário observado em Manaus reflete um problema nacional. Nas últimas quatro décadas, o Brasil não conseguiu conter o avanço da violência e o fortalecimento das facções criminosas.
O crescimento do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do Comando Vermelho (CV) transformou o crime organizado em uma estrutura empresarial altamente lucrativa, com atuação em praticamente todo o território nacional e forte presença em rotas internacionais do narcotráfico.
Especialistas em segurança pública apontam que as facções expandiram seu poder não apenas por sua capacidade financeira, mas também pelas fragilidades históricas do Estado brasileiro no enfrentamento ao crime organizado.
Em muitas comunidades, organizações criminosas passaram a exercer influência sobre a vida cotidiana dos moradores, impondo regras próprias, cobrando taxas ilegais e promovendo julgamentos clandestinos conhecidos como “tribunais do crime”.
SOBERANIA NACIONAL OU TERRORISMO?
Quando uma ‘força estatal’ paralela consegue impor suas próprias regras (leis), estabelece delimitações territoriais, oprime a população dessas regiões, oferece ‘segurança’ e cobra ‘imposto’ por isso, define novos ‘padrões’ como se tivesse seu próprio ‘Congresso” “judiciário” e “Poder Executivo’, não estaria pondo em risco a “Soberania Nacional?”.
INTERVENÇÃO CONFUSA
Nos últimos anos, o debate sobre segurança pública também passou a envolver decisões judiciais e normas operacionais destinadas a reduzir riscos para moradores durante ações policiais.
Entre essas novas normas, ganhou destaque a decisão do Supremo Tribunal Federal no julgamento conhecido como “ADPF das Favelas”, que estabeleceu critérios para operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro.
Defensores da medida argumentam que ela protege direitos fundamentais da população civil. Críticos, por outro lado, afirmam que as restrições dificultaram a atuação das forças de segurança em determinadas áreas dominadas por facções que só aumentou.
CANDIDATOS DEVEM OLHAR PARA ESSE PROBLEMÃO
Enquanto isso, em Manaus, cresce a preocupação com a ausência de uma estrutura adequada para acolhimento, tratamento e reinserção social de dependentes químicos.
Organizações sociais e entidades assistenciais relatam que a demanda por vagas em programas de recuperação supera amplamente a capacidade de atendimento existente.
Um exemplo é o Instituto Revisam, localizado na região do Tarumã. A instituição desenvolve um trabalho voltado ao acolhimento e tratamento de mulheres dependentes químicas, além de atender casos relacionados à depressão, transtornos emocionais e outras enfermidades.
Apesar da relevância do serviço prestado, iniciativas como essa ainda são insuficientes diante da dimensão do problema enfrentado pela capital amazonense.
O instituto carece de contribuições voluntárias e precisa urgentemente de apoio e repasses para continuar salvando vidas e recuperando vidas.
Especialistas da área social alertam que não basta apenas retirar usuários das ruas. É necessário criar uma rede integrada envolvendo saúde mental, assistência social, qualificação profissional, moradia assistida e acompanhamento contínuo para evitar recaídas.
Sem investimentos proporcionais ao crescimento da demanda, a tendência é de agravamento do cenário nos próximos anos.
A pergunta que começa a surgir entre especialistas, empresários e moradores é inevitável: de que forma a riqueza produzida por Manaus poderá se transformar em qualidade de vida para aqueles que hoje sobrevivem à margem do desenvolvimento? A resposta para essa questão poderá definir não apenas o futuro da capital amazonense, mas também o modelo de crescimento social que o Amazonas pretende construir nas próximas décadas.







