A seleção do Haiti, que fará sua estreia na Copa do Mundo neste sábado (13), não poderá exibir em seu uniforme uma ilustração que remete a um dos momentos mais significativos de sua história: a revolução que culminou na abolição da escravatura e na conquista da independência do país, ocorrida entre 1791 e 1804. A Federação Internacional de Futebol (Fifa) vetou a imagem, alegando que se tratava de uma manifestação política, o que é proibido pelo regulamento da entidade.

O desenho em questão retratava um grupo de pessoas empunhando uma bandeira vermelha e branca. Conforme relatado por um representante da delegação haitiana ao jornal The Athletic, a ilustração era uma referência à Batalha de Vertières, travada em 1803. Essa batalha foi um marco decisivo para a derrota das forças francesas no território haitiano. A escolha da imagem não apenas celebrava um símbolo de orgulho nacional, mas também aproveitava uma coincidência marcante: a batalha ocorreu em 18 de novembro, data em que a seleção caribenha garantiu sua classificação para a Copa do Mundo em 2025, ao vencer a Nicarágua por 2 a 0 nas Eliminatórias.

Não é a primeira vez que o Haiti se depara com restrições de entidades esportivas em relação a símbolos históricos. Em fevereiro deste ano, durante os Jogos de Inverno na Itália, o Comitê Olímpico Internacional (COI) também proibiu o uso de uma ilustração de Toussaint Louverture, um dos líderes da revolução haitiana, no uniforme da cerimônia de abertura. Na ocasião, o argumento foi similar: a imagem foi considerada um elemento político.

Para o professor Gabriel Léccas, mestre em história pela UERJ, essas proibições representam um “silenciamento histórico e político da memória da revolução e dos sujeitos históricos que a construíram”. Ele ressalta que essa censura remonta ao século XIX, quando discursos escravistas temiam novas revoltas. Léccas aponta que tais atitudes refletem discursos racistas que ignoram o protagonismo de figuras não brancas na luta por direitos e no questionamento de hierarquias raciais.

A Revolução do Haiti teve suas raízes na colonização da ilha de Hispaniola, inicialmente habitada pelos indígenas Taïno. Após a chegada de Cristóvão Colombo em 1492, a população nativa foi dizimada. Para suprir a mão de obra, africanos escravizados foram trazidos para a ilha, que se tornou a colônia francesa de Saint-Domingue. A economia prosperava com a produção de cana-de-açúcar, café e anil, tornando a colônia um dos principais mercados para o tráfico negreiro europeu. A sociedade era rigidamente dividida, com uma vasta maioria de escravizados sob o regime do Código Negro, que previa punições severas.

O enfraquecimento do poder francês e a disseminação de ideais iluministas criaram o cenário para a revolta, que eclodiu em 22 de agosto de 1791. Liderada por figuras como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe, a rebelião resultou em uma guerra de 12 anos. Apesar da França ter decretado a abolição da escravatura em 1794, Napoleão Bonaparte tentou restabelecer o regime escravista em 1802, o que uniu as forças rebeldes em prol da independência total.

A Batalha de Vertières, em novembro de 1803, foi o confronto decisivo. Sob o comando de Jean-Jacques Dessalines, as tropas haitianas, com destaque para o oficial François Capois, infligiram uma derrota às forças francesas, forçando sua rendição e evacuação.

Em 1º de janeiro de 1804, Dessalines proclamou a independência, rebatizando a colônia como Haiti. Este marco estabeleceu a primeira república negra do mundo e o primeiro país das Américas a abolir legalmente a escravidão. A Revolução Haitiana reverberou internacionalmente, inspirando movimentos emancipacionistas e debates sobre direitos civis e raciais em outras nações, incluindo o Brasil.