Felix Valois

                        Tenho dúvidas. E quem não as tem? Seria a pergunta a formular, caso interessasse enveredar pelos tortuosos caminhos da filosofia. Não é o caso, porém, até por que as indagações que me assaltam não possuem aquela profundidade que capacita à inserção nos doutos compêndios da austera mãe das ciências.

                        Nada disso. São questionamentos singelos que debito mais à pura e simples ignorância que àquela sofreguidão pelo saber, esta sim a revelar a angústia do gênio pesquisador pelo esclarecimento completo do universo. Já se está a ver, portanto, que qualquer tentativa de filosofar em campo tão minguado conduziria a reflexões de beira de igarapé, incapazes de figurar no currículo acadêmico mais chinfrim.

                        Tenho consciência, assim, de que estas mal traçadas linhas jamais aparecerão na plataforma Lattes (nem sei se é assim que se escreve), espaço restrito em que os doutos deste grande país exibem seus títulos e comendas, num eloquente atestado da nossa indiscutível evolução. Afinal, já temos até incursões no seleto clube em que a diversão predileta é a explosão de bombas nucleares.

                        Mas, por exemplo: se a velocidade máxima nas estradas brasileiras é de cem quilômetros por hora, por que continuam vendendo carros que, segundo o painel, podem chegar a mais do dobro desse desempenho? Se não é permitido usar, por que permitem vender e ainda fazer propaganda exatamente do que é proibido?

                        Se o dinheiro da caderneta de poupança só merece o mísero percentual de meio por cento para sua remuneração, por que essa coisa chamada taxa selic permite ao governo nos cobrar três por cento (será que é só isso mesmo) para pagarmos os impostos?

                        Qual é a fonte de energia de que se utiliza o satanás para manter sempre acesas e vibrantes as chamas do inferno? Há de ser, suponho, uma tecnologia revolucionária porque mesmo o coisa ruim não teria condições de arcar com as tarifas da Amazonas Energia. E olha que lá nas profundas não pode haver apagão, já que as tais chamas são eternas por definição.

                        Por que é que disco voador só aparece em lugares ermos e remotos e suas imagens só podem ser detectadas por algum maníaco de plantão? Seria muito mais racional para inteligências superiores exibir as máquinas e seus tripulantes em pleno gramado do Maracanã, em domingo de decisão entre Flamengo e Vasco. Os objetos voadores já não poderiam ser tidos como não identificados.

                        Não consigo respostas para nada disso. Na verdade, não há necessidade de procurá-las porque seriam despidas de qualquer transcendência ou importância. Sou, como disse, apenas um ignorante a matutar sobre coisas triviais que perpassam o dia a dia quase imperceptíveis. Perdoem a tolice.