Inicio este texto dizendo que a sociologia não fulaniza e nem trata de problemas isolados. As ciências sociais tratam de fenômenos sociais. Quando um problema surge, ele só deve receber a atenção da sociologia se ocorrer coletivamente no campo social, cultural e histórico.

Sobre o fechamento do tradicional Bar do Armando, em Manaus, à ciência que estuda a sociedade interessa saber da memória da cidade e os impactos que o encerramento de espaços coletivos causam na vida cultural e na história dessa cidade e do seu povo.

É óbvio que os atores devem estar presentes na análise, mas não fulano A ou B e sim as instituições. Não interessa se o diretor, dono, curador é de direita, de esquerda, brasileiro ou japonês.

Bar é um espaço cultural porque é coletivo, é de frequência coletiva, sociabilidade, circulam ideias e faz parte da memória da cidade. Ele não existe apenas num único lugar, cidade ou país. Ele se define culturalmente de acordo com cada sociedade. Mesmo um boteco na periferia tem esse perfil se ele atravessou o tempo naquele lugar.

As cidades vêm perdendo seus espaços culturais e de memória. Prédios seculares são derrubados para dar lugar a verdadeiros monstrengos arquitetônicos. Espaços coletivos de convivência e desenvolvimento cultural são fechados pela ganância de grupos econômicos ou instituições.

No caso do Bar do Armando, a igreja católica é a proprietária do prédio. Não somente desse prédio, mas de vários outros no entorno do templo de São Sebastião, uma região de alto valor imobiliário.

A ganância da instituição é secular e não causa estranheza em querer fechar um espaço cultural e de memória para ganhar mais dinheiro. A história da igreja católica carimba essa conduta. Sua riqueza foi construída com pilhagem e mortes de centenas de povos. Quem nunca leu um livro de história, deve, pelo menos, ter visto um filme sobre As Cruzadas.

Em nome de Deus, pilhou, roubou, matou.

Em nome de Deus, hoje vive da especulação imobiliária e seu monarca absoluto vive numa sede que ostenta riqueza e jogo financeiro milionário. Livros de vaticanistas revelam que naquele Reino a ganância se impõe.

É sobre esses dois sujeitos que devemos tratar, objetivamente, e não ficar fulanizando um problema coletivo.

É a memória de Manaus que está sofrendo ataque de uma instituição com histórico de saque e destruição. Foi assim que fecharam os cinemas de Manaus e seus prédios foram derrubados, dando lugar a monstrengos da arquitetura. Foi assim que destruíram teatros, bares, casas de espetáculos, bibliotecas, livrarias, etc. É assim que destroem um povo.

Se não é uma instituição religiosa, é um banco, uma grande empresa estrangeira ou um milionário ignorante. No final, é o poder econômico e político que não respeita a memória do povo e termina por impor sua ganância.

Quem não lembra do prédio do Teatro Oficina, que o bilionário Sílvio Santos queria tomar?. Zé Celso Martinez estava errado em lutar? Felizmente, o estado de São Paulo desapropriou o terreno e o teatro ficará lá.

É disso que estamos falando.

Lúcio Carril
Sociólogo