Por Lucyane Mendes Silva
Há alguns anos, as redes sociais transformavam roupas, maquiagens e restaurantes em febre da noite para o dia. Hoje, a lógica é outra: o que viraliza são procedimentos de saúde. Basta um vídeo bem-produzido, um influenciador de grande alcance e promessas de mais energia, imunidade fortalecida ou rejuvenescimento para que milhares de pessoas passem a desejar um tratamento que, muitas vezes, sequer conhecem em profundidade.
A recente repercussão envolvendo a influenciadora Virgínia Fonseca e a soroterapia expôs um problema que vai muito além de um procedimento específico. O episódio revela como a ciência tem perdido espaço para o marketing e como a autoridade construída nas redes sociais, em alguns casos, passou a competir com anos de pesquisa científica.
Como biomédica, acompanho com preocupação esse movimento. A saúde não pode ser guiada por tendências. Diferentemente da moda, ela não permite escolhas baseadas apenas em preferências ou popularidade. Cada intervenção precisa responder a uma pergunta simples: existe evidência científica suficiente para justificar seu uso?
A soroterapia possui indicações clínicas bem estabelecidas, principalmente para pacientes com deficiências nutricionais específicas ou situações médicas que exigem reposição intravenosa. O problema começa quando esse recurso passa a ser vendido como uma solução universal para pessoas saudáveis, prometendo benefícios amplos sem que existam estudos robustos capazes de confirmar esses resultados.
Existe uma falsa sensação de segurança quando o assunto envolve vitaminas. Muitas pessoas acreditam que, por serem nutrientes essenciais, não oferecem riscos. Mas essa percepção ignora um princípio básico da fisiologia: tanto a deficiência quanto o excesso podem causar danos ao organismo. Além disso, qualquer infusão intravenosa é um procedimento invasivo, sujeito a complicações que vão desde reações adversas até infecções.
Outro aspecto que merece reflexão é a mudança no comportamento da população. Antes, as pessoas perguntavam ao médico qual era o melhor tratamento. Hoje, chegam ao consultório solicitando exatamente o procedimento que viram nas redes sociais. A influência digital passou a ditar demandas em saúde, invertendo uma lógica que deveria ser baseada na avaliação clínica individual.
Esse fenômeno também evidencia um desafio contemporâneo: diferenciar experiência pessoal de evidência científica. O fato de alguém afirmar que se sentiu melhor após um tratamento não significa que ele seja eficaz para todos. A ciência não trabalha com relatos isolados, mas com pesquisas controladas, análise estatística e reprodução consistente dos resultados.
Vivemos uma época em que a velocidade da informação supera, muitas vezes, a velocidade da produção científica. Enquanto um vídeo alcança milhões de visualizações em poucas horas, estudos de alta qualidade levam anos para serem concluídos. Essa diferença de tempo cria um terreno fértil para a disseminação de promessas sem comprovação.
Mais do que discutir a soroterapia, o momento nos convida a refletir sobre o futuro da comunicação em saúde. Influenciar pessoas significa, também, assumir responsabilidade sobre as consequências dessa influência. Quando procedimentos médicos passam a ser divulgados como produtos de consumo, o risco é substituir o pensamento crítico pelo impulso de seguir tendências.
Talvez o maior aprendizado desse episódio seja lembrar que ciência não é construída por curtidas, compartilhamentos ou números de seguidores. Ela é construída por evidências. E, quando o assunto é saúde, essa continua sendo a única tendência que realmente merece ser seguida.
Lucyane Mendes Silva, Biomédica, phD em Medicina Tropical
Docente e Pró-Reitora de Pesquisa, Extensão e Internacionalização do Centro Universitário Martha Falcão Wyden–
Sobre o Centro Universitário Martha Falcão Wyden
Fundado em Manaus no ano 2000, referência no ensino superior do Amazonas, o Centro Universitário Martha Falcão Wyden integra o grupo educacional Wyden e se destaca pela excelência acadêmica, inovação e compromisso com a formação de profissionais qualificados. Com cerca de 2.200 alunos, a instituição oferece cursos reconhecidos como Direito, Psicologia, Administração, Enfermagem, Odontologia e Medicina Veterinária. Fortemente envolvida em projetos de extensão, desenvolve ações gratuitas voltadas à saúde, educação e cidadania, aproximando os estudantes da realidade social da região. Com estrutura moderna, corpo docente experiente e forte vínculo com o mercado, o Martha Falcão Wyden contribui para o desenvolvimento humano e sustentável da Amazônia e do Brasil.

Adriano Silva – Assessor de Imprensa


