Por Plinio Cesar A. Coêlho

​A estratégia política de Jair Bolsonaro, ao designar seu filho, o Senador Flávio Bolsonaro, para “disputar eleições em seu nome”, transcende a mera disputa eleitoral. É um ato que configura uma ameaça de golpe institucional disfarçado de sucessão. Esse movimento não é apenas um retrocesso à lógica dinástica do Império, mas sim uma fraude direta à democracia, onde o voto é instrumentalizado para fins de blindagem jurídica e familiar. Essa manobra ecoa o mais profundo e perigoso dos retrocessos, como se o Brasil tivesse voltado à era de Dom Pedro I a Dom Pedro II.

O Retrocesso
Histórico: De Cidadão a Súdito

O cerne da crítica reside na absoluta negação dos princípios republicanos, transformando o pleito em um negócio de família:

✓ Negação da Meritocracia: A República exige que o cidadão ascenda por mérito e aprovação popular, não por laços de sangue. Transformar a eleição em uma disputa vicária onde o pai, interditado pela Justiça Eleitoral, utiliza o filho como prolongamento de seu mandato é um ataque direto a este princípio.

✓ A Substituição da Res Publica pela Res Privata: O ato de designar um “herdeiro” político transforma a coisa pública em coisa privada do clã. A política deixa de ser um debate de ideias para se tornar uma gestão de sobrevivência familiar, onde o principal critério de escolha é a lealdade filial, e não a capacidade de servir à nação.

✓ A Figura da “Marionete”: A crítica de que Flávio seria um “manipulado” ou uma “marionete” é pertinente. Um candidato eleito sob essa égide não defenderia os interesses da população, mas sim a pauta pessoal, jurídica e política do clã. O voto, em vez de legitimar um novo projeto, apenas revalidaria o projeto anterior, mantendo o eleitor refém de uma dinâmica de poder familiar, marcada pela perseguição a jornalistas, parlamentares e o descaso com crises sanitárias, como foi assistido durante o período da COVID-19.

O Paralelo com a Era Imperial e o Poder Moderador Oculto

O temor de um retorno à lógica imperial serve como um forte alerta cívico contra a subversão institucional:

✓ Hereditariedade do Poder Mimetizada: A manobra de designar o filho mimetiza a lógica sucessória imperial, onde o poder é ligado à linhagem. O eleitor é chamado não a escolher um líder, mas a confirmar a linha dinástica do clã.

✓ O Poder Moderador Extraconstitucional: No Império, o Poder Moderador permitia ao Imperador intervir nos demais poderes. Na “República da Marionete”, o pai (o ex-presidente) assume o papel de um Poder Moderador informal e extraconstitucional. O filho no cargo representa a garantia de que a “vontade do pai” — com sua retórica de ameaças a instituições e sua visão de mundo antidemocrática — continuaria a ser o veto final sobre as políticas públicas.

O Indulto do Herdeiro: Como a Democracia Vira Cartório da Família Real

A estratégia política em curso, no entanto, tem um objetivo que é a essência da ironia e do retrocesso: a blindagem jurídica e a reentrada política do pai.
A Ironia Central: A candidatura de Flávio Bolsonaro não é um projeto de governo para o povo, mas uma procuração eleitoral com uma única e vital cláusula: o indulto paterno. A subversão é tamanha que a própria República é rebaixada a um Balcão de Serviços do clã, onde o filho é eleito não para legislar ou governar, mas sim para ter a caneta necessária para assinar a anistia do pai, neutralizando suas pendências legais e pavimentando o seu retorno ao cenário político com ares de mártir. O voto, neste cenário, é um atestado de submissão à lógica imperial e um endosso à ideia de que a lei pode ser contornada por laços de sangue. O eleitor é chamado a participar da coroação do herdeiro apenas para garantir a imunidade do Rei afastado, fazendo o Brasil eleger, indiretamente, o indultado e voltando à era de ameaças e desrespeito às instituições que marcou o período anterior.

Conclusão: Um Absurdo Inaceitável

A escolha de um parente próximo apenas para garantir a impunidade, a continuidade da agenda pessoal e o retorno à cena pública do líder anterior não é política; é nepotismo político em sua forma mais perversa e destrutiva.
Em uma República madura, a democracia exige alternância real, pluralidade de ideias e candidaturas independentes que prestem contas à nação. Aceitar essa imposição é um retrocesso histórico que apequena o Brasil ao nível de uma monarquia bananeira disfarçada de República, onde a lealdade ao clã substitui a lealdade à Constituição e ao povo. O Brasil não precisa de um Regente para continuar uma dinastia; precisa de um Cidadão para construir uma República justa. A história não deve ser repetida como farsa familiar.