É, no mínimo, uma contradição que o governador Cláudio Castro venha defender a tese de equiparar facções criminosas a terroristas, quando o próprio Estado que ele governa está historicamente tomado por verdadeiras organizações criminosas travestidas de estruturas políticas e administrativas. As milícias, por exemplo, nasceram e cresceram à sombra da omissão e, muitas vezes, da conivência do poder público, tornando-se um poder paralelo tão ou mais destrutivo que o tráfico. Enquanto isso, setores da saúde, da educação e da segurança são sangrados por esquemas de corrupção, superfaturamento e desvio de verbas públicas — crimes silenciosos, mas com consequências devastadoras, que matam tanto quanto o fuzil na mão de um traficante.

É fácil criminalizar os pobres das comunidades e fazer discursos duros contra os que empunham armas, mas o verdadeiro terrorismo contra o povo brasileiro é praticado de terno e gravata, dentro dos gabinetes, por quem se alimenta da miséria e da falta de oportunidades. Cláudio Castro, que responde a processo no TSE por abuso de poder econômico, deveria antes prestar contas sobre os desvios e a promiscuidade entre política e negócios no Rio de Janeiro, em vez de buscar holofotes com discursos moralistas. A sociedade não precisa apenas de leis mais severas contra os “bandidos de fuzil”, mas de coragem institucional para enfrentar os “bandidos de colarinho branco” que dilapidam o Estado por dentro.

Por Plinio Cesar A. Coêlho

Imagem: Mauro Pimentel / AFP