Felix Valois
Ninguém falava alto na sexta-feira santa. Nem brigava, nem brincava,
porque o ambiente era mesmo de velório. O menino que descumprisse essa regra não
escrita podia contar que o que era seu ficava guardado até o sábado de aleluia, quando a
peia cantaria com os necessários juros. Os católicos, como meu pai e minha mãe,
cumpriam rigorosamente os preceitos, mais acentuados ainda na Manaus da minha
infância, quando a igreja romana exercia domínio absoluto e incontestado.
A refeição, já frugal no comum, trazia conotações de abstinência e era
servida em mesa nua, vez que a toalha, por modesta que fosse, poderia gerar ideias
profanas de banquete. O peixe era assim comido em silêncio de monastério, faltando
apenas o tom monocórdio do canto gregoriano.
Mas a música sacra não faltava na igrejinha de Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro, ali na esquina das ruas Leonardo Malcher e Luís Antony. Lá fui
iniciado em todos os mistérios do catecismo, ouvindo, desde tenra idade, que “deus é
um espírito perfeitíssimo criador do céu e da terra”. Estava no primeiro manual. E era
crendo nisso que ajudava à missa, no livro ou no sino, ou, ainda, segurando a patena na
hora em que se distribuía a comunhão.
Na sexta sagrada, depois das três da tarde, a cerimônia da via sacra era
imprescindível. Já então os acólitos estávamos proibidos de tocar o sino, substituído a
caráter por matraca metálica a soar como o grasnar de uma rasga mortalha, ave
agourenta que, no dizer de minha madrinha Antonica, era presença obrigatória no
telhado das residências onde houvesse um candidato bem cotado a defunto.
À noite, serravam-se as velhas. Que irreverência! Depois de entoar algo
mais ou menos assim: “ai, dona Coló, vai entregar sua alma a deus e o corpo à cova
fria”, o grupo de “irresponsáveis” atacava um pedaço de madeira com um serrote,
produzindo um som que, no silêncio noturno, seria capaz de arrepiar uma estátua
equestre. De vez em quando a briga era inevitável pela reação dos familiares da
“serrada”.
Tudo mudava no sábado com a malhação de judas. Pendurados nos
postes, com os respectivos cartazes, os mamulengos eram de lá descidos e não havia
curumim que permanecesse alheio à ingente tarefa de destruí-los à custa de muita
pancada distribuída com paus ou canos de ferro.
A culminância era a missa do domingo. Retirada a cobertura lutuosa das
imagens dos santos, a igrejinha parecia rejuvenescer de júbilo, com padre Leão, em
paramentos de gala, rezando a missa cantada. Ao celebrante, respondiam as vozes de
um belíssimo coro, comandado pelas irmãs Feitosa, sempre gentis, sempre fervorosas.
Não sei como é hoje. Mas a verdade, mesmo, é que mentiria se dissesse
que não sinto saudade.


