A vida é feita de protocolos, prazos e previsões. Para quem vive o ofício do Direito, os dias correm em meio a códigos, petições e compromissos que não admitem atrasos. Mas o amor — esse elemento fora de qualquer norma jurídica — insiste em nos lembrar que a existência não cabe apenas nas linhas da razão.
Foi num desses dias comuns, cinzentos e lotados, que ele apareceu. Sem avisar, sem se apresentar, sem seguir rito algum. O amor chegou como um tropeço suave na rotina. Um instante breve, quase imperceptível ao tempo, mas capaz de alterar tudo.
Gabriel García Márquez já escreveu que o amor é como um tremor de terra. E é. Não um desastre, mas uma perturbação necessária. Um abalo que desloca nosso eixo e nos reestrutura por dentro. A alma, tão acostumada à contenção, se vê sacudida por algo que não pode ser alegado nem impugnado: apenas sentido.
Naquele segundo exato, tudo o que parecia urgente perdeu força. A lógica do mundo se desfez e, paradoxalmente, tudo pareceu encontrar um novo sentido. O tempo parou — e, por um breve momento, compreendi que viver também é permitir-se sentir o que não se pode controlar.
Talvez o amor seja mesmo isso: uma interrupção. Uma quebra no fluxo linear da vida. E, ao mesmo tempo, uma reconciliação com tudo aquilo que havíamos esquecido — inclusive de nós mesmos.
Porque, às vezes, basta um olhar, um gesto ou uma presença inesperada para que tudo aquilo que parecia irremediavelmente técnico se transforme em poesia.
E assim seguimos, entre prazos e paixões, audiências e afetos, tentando conciliar os autos da vida com os sentimentos que escapam às nossas regras. Quando o amor nos encontra, pouco importa a pauta do dia. Porque, naquele instante, tudo o que era certo se curva diante daquilo que, finalmente, faz sentido.
Themis, a deusa da Justiça!


