O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) optou por manter a moderação no ritmo de corte da taxa Selic, os juros básicos da economia. A decisão foi influenciada pelas incertezas geradas pelos conflitos geopolíticos no Oriente Médio e pelas projeções de que a inflação pode permanecer elevada por um período mais longo.
Divulgada nesta terça-feira (5), a ata da última reunião do Copom detalha que o colegiado reduziu os juros em 0,25 ponto percentual, fixando a taxa em 14,5% ao ano. O documento também aponta que o mercado elevou sua previsão para a inflação deste ano, agora estimada em 4,89%.
A ata ressalta que o Copom não ofereceu previsões claras sobre a trajetória futura dos juros, indicando que o comitê está monitorando atentamente o conflito no Oriente Médio e seus potenciais efeitos sobre a inflação. O Banco Central também mencionou a permanência de incertezas relacionadas à política econômica dos Estados Unidos como um fator que contribuiu para essa postura cautelosa.
“O Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, declara a ata.
O colegiado está atento à possibilidade de impactos mais duradouros nas cadeias de produção e distribuição, além dos efeitos potenciais em cascata caso haja restrições na oferta de petróleo e seus derivados. O conflito, que afeta a navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global e fertilizantes, exige atenção especial de países emergentes em um cenário de crescente volatilidade em preços de ativos e commodities.
Antes da recente escalada das tensões, a expectativa predominante era de uma redução mais expressiva na Selic. Contudo, o Copom alerta agora para um risco de “desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos, em particular para o ano de 2028”. As projeções do mercado financeiro para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) indicam 4,89% para este ano, 4% para 2027 e 3,64% para 2028, com esta última tendo sido elevada nas últimas semanas.
A autoridade monetária enfatiza que o esforço para trazer a inflação de volta à meta torna-se mais custoso quando as expectativas do mercado se descolam. Isso justifica a manutenção de uma política monetária mais restritiva. O modelo de referência do próprio BC projeta uma alta de 4,6% para o IPCA em 2026.
A taxa Selic é o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação, servindo de referência para outras taxas de juros na economia. A meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, estabelecendo limites entre 1,5% e 4,5%.
A taxa básica de juros permaneceu em 15% ao ano entre junho de 2025 e março deste ano, o nível mais alto em quase duas décadas. Embora o Copom tenha retomado os cortes na reunião de março, em um contexto de queda inflacionária, a guerra no Oriente Médio, com reflexos no preço de combustíveis e alimentos, adiciona complexidade ao cenário. Apesar disso, o comitê considerou que os eventos recentes não impedem a continuidade do ciclo de redução dos juros.
“O Comitê julgou apropriado dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta”, conclui a ata.


