A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025, continua a gerar repercussões significativas no Banco de Brasília (BRB), afetando diretamente a confiança dos clientes e o cotidiano de seus quase 5 mil funcionários. A ação policial expôs um esquema de fraudes financeiras envolvendo o BRB e o Banco Master, atingindo um dos ativos mais valiosos da instituição pública do Distrito Federal.

Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e funcionário concursado do BRB desde 2008, expressou preocupação com as consequências da crise. “Estamos todos, sociedade e trabalhadores, pagando a conta de uma decisão política de salvar o Master”, declarou à Agência Brasil, evidenciando o impacto da situação nos trabalhadores.

Relatos de um ambiente de trabalho mais estressante têm sido frequentes entre os funcionários, especialmente aqueles convocados para prestar depoimentos à Polícia Federal e auditores sobre as negociações com o Banco Master. Analistas de áreas envolvidas nas discussões com a instituição, que culminaram na aquisição de bilhões em créditos e na intenção de compra de parte do Master por R$ 2 bilhões – operação rejeitada pelo Banco Central –, são os mais afetados.

A crise institucional, considerada sem precedentes na história do banco fundado em 1964, gera apreensão entre funcionários concursados, terceirizados e estagiários. A solidez do banco e os riscos para os investimentos tornaram-se pauta frequente nas agências, com clientes buscando informações e, em alguns casos, considerando resgatar seus recursos, o que sobrecarrega os funcionários na tarefa de tranquilizá-los.

A incerteza sobre o futuro dos empregos e a cobrança por explicações sobre fatos que fogem de sua alçada contribuem para um sentimento oscilante entre indignação e apatia entre os trabalhadores. O sindicato, inclusive, afirma ter denunciado indícios de irregularidades nas negociações com o Master ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários já em novembro de 2024, antes mesmo da divulgação pública dos fatos pela PF.

A situação também afeta cerca de 3 mil aposentados do BRB, cujos planos de saúde e previdência complementar dependem da saúde financeira da instituição. Embora a Previdência BRB assegure a autonomia e independência de seus patrimônios, a incerteza prolongada pode assustar investidores e o mercado, como alertou Oliveira, que criticou a falta de informações claras, fator que levou a agência Moody’s a rebaixar a nota do BRB, indicando a necessidade de uma injeção de capital.

Enquanto o BRB se manifesta oficialmente por meio de comunicados e fatos relevantes, garantindo em campanhas digitais que segue “firme e forte”, o novo presidente, Nelson de Souza, evitou comparecer a uma reunião na Assembleia Legislativa do Distrito Federal, alegando a necessidade de aguardar a conclusão de auditorias. Sua ausência gerou irritação nos deputados, que exigem transparência sobre a real situação do banco.

Daniel Oliveira teme que a exposição negativa na imprensa alimente o discurso pró-privatização, resultando na venda de ativos do banco por valores inferiores ao seu real valor de mercado, o que beneficiaria grandes instituições financeiras. A crise também paralisou projetos estratégicos, como a expansão do banco para outras unidades da federação e a convocação de aprovados em concursos recentes.

A governadora Celina Leão admitiu a possibilidade de fechamento de agências em outras unidades da federação, afirmando que o banco voltará à sua vocação regional. Ela reiterou que o BRB não vai quebrar e que uma solução será apresentada em até 30 dias, um prazo considerado curto pelo sindicato diante da complexidade da situação, que exige capitalização e decisão política para sua resolução.

O economista César Bergo, da UnB, aponta a falta de transparência, evidenciada pela demora na divulgação do balanço de 2025 e outros documentos contábeis, como um agravante para a crise de confiança, sujeitando o banco a multas diárias. Ele defende ações mais contundentes do Banco Central e da CVM, e sugere que a capitalização pelo GDF, empréstimos, federalização ou privatização são as saídas possíveis, ressaltando a urgência de uma decisão rápida.

Em nota, a governadora Celina Leão afirmou que os fatos envolvendo o ex-presidente Paulo Henrique Costa estão sob análise do Judiciário e que providências cabíveis foram adotadas com colaboração das autoridades. O BRB não respondeu aos contatos da reportagem para comentar o assunto.