O setor de pequenas indústrias no Brasil registrou seu desempenho mais fraco desde os momentos iniciais da pandemia de Covid-19, conforme aponta uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O levantamento, referente ao primeiro trimestre de 2026, indicou um declínio na produção, um agravamento das condições financeiras e uma diminuição na confiança dos empresários.

A pesquisa, intitulada “Panorama da Pequena Indústria”, atribui essa deterioração a uma combinação de fatores. Juros persistentemente altos, dificuldades crescentes no acesso a linhas de crédito e um aumento significativo no custo das matérias-primas têm impactado diretamente a saúde financeira e operacional das pequenas empresas.

O índice que mede o desempenho geral das pequenas indústrias caiu para 43,7 pontos no período. Este é o menor patamar registrado desde o segundo trimestre de 2020, quando o indicador atingiu 34,1 pontos em meio à crise sanitária global. A pesquisa avalia três pilares essenciais: o volume de produção, a utilização da capacidade instalada das fábricas e o número de empregados. A queda no índice sinaliza que as pequenas empresas estão produzindo menos, operando suas estruturas em menor escala e reduzindo seu quadro de funcionários.

A situação financeira das pequenas indústrias também se deteriorou consideravelmente. O índice que acompanha as condições financeiras recuou 2,5 pontos, atingindo 39 pontos, o pior resultado observado nos últimos cinco anos. Este indicador leva em conta o acesso ao crédito, a margem de lucro obtida e a satisfação geral dos empresários com a conjuntura financeira de seus negócios.

Em análise, a economista da CNI, Julia Dias, destacou que as altas taxas de juros impõem barreiras adicionais ao financiamento para pequenas empresas, frequentemente vistas como de maior risco pelas instituições bancárias. Além disso, o aumento nos preços de insumos e matérias-primas, parcialmente influenciado por conflitos internacionais como a guerra no Oriente Médio, tem comprimido as margens de lucro do setor.

A elevação no custo das matérias-primas emergiu como uma das principais preocupações. No segmento de transformação, essa questão saltou da sexta para a segunda posição entre os entraves mais citados pelos empresários. O percentual de empreendedores que apontaram essa dificuldade quase dobrou em apenas um trimestre, passando de 20% para 34,1%. No setor da construção civil, a preocupação com a escassez ou o alto custo de insumos avançou de 4,1% para 18,1%, elevando o tema da 13ª para a 5ª posição nos principais problemas listados.

Apesar da leve diminuição na força como principal entrave em comparação com o final de 2025, a elevada carga tributária ainda figura como a principal dificuldade apontada pelas pequenas indústrias. No setor da construção, os juros altos se consolidaram como o segundo maior obstáculo, com a preocupação das empresas em relação às taxas de juros subindo de 30,9% para 37,1%. A CNI ressalta que os juros elevados encarecem o crédito, desestimulam investimentos e dificultam a expansão das pequenas empresas.

A confiança dos empresários industriais de pequeno porte também segue em trajetória de queda. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) para este segmento atingiu 44,6 pontos em abril, o menor nível desde junho de 2020. O indicador permanece abaixo da marca de 50 pontos há 17 meses consecutivos, indicando um cenário predominantemente pessimista no setor.

As expectativas para os próximos meses permanecem cautelosas. O índice de perspectivas da pequena indústria marcou 47,4 pontos, refletindo uma visão moderada dos empresários em relação à demanda futura, níveis de produção, contratações e investimentos. Este resultado sugere que, apesar da conjuntura adversa recente, uma parcela das empresas ainda vislumbra uma recuperação gradual ao longo do ano.