A política mundial parece estar entrando em uma nova fase. Enquanto partidos tradicionais, governos estabelecidos e parte da imprensa continuam analisando eleições sob parâmetros que funcionaram durante décadas, uma parcela significativa do eleitorado parece ter migrado para um ambiente onde as regras mudaram e mostram outras percepções: as redes sociais.

Nos últimos anos, diversos resultados eleitorais surpreenderam institutos de pesquisa, analistas políticos e lideranças partidárias. A vitória de Javier Milei na Argentina, o crescimento de candidaturas conservadoras em diferentes países da América Latina e os desempenhos acima das expectativas registrados por candidatos de direita em disputas recentes acenderam um alerta para quem acompanha o cenário político internacional.

Donald Trump, eleito pela segunda vez presidente dos Estados Unidos, é um bom exemplo dessa mudança e visão do eleitor ‘invisível’ que os pesquisadores não conseguem ‘entrevistar’ pessoalmente ou pelo contato telefônico e que acaba surpreendendo a todos em eleições mudo a fora.

Não se trata necessariamente de afirmar que as pesquisas estejam erradas. Muitas vezes elas retratam com precisão o momento em que são realizadas. O problema pode estar na velocidade com que o eleitor decide, muda de posição ou simplesmente deixa de revelar suas preferências.

Existe um eleitor que participa pouco dos debates públicos, evita discussões políticas e raramente responde pesquisas de forma espontânea. Esse eleitor, que alguns analistas chamam de “eleitor invisível”, pode estar se tornando um dos fatores mais importantes das eleições modernas.

No Brasil, parte dos aliados do governo do presidente Lula parece excessivamente concentrada nas narrativas contra o bolsonarismo, enquanto corre o risco de subestimar mudanças comportamentais que vêm ocorrendo dentro do eleitorado.

A estratégia de atacar adversários políticos pode funcionar para mobilizar militantes já convencidos, mas não necessariamente alcança os setores indecisos da população.

As redes sociais alteraram profundamente a forma como a informação circula. Hoje, um cidadão tem acesso simultâneo a versões diferentes de um mesmo fato, podendo comparar discursos, vídeos, documentos e declarações em questão de segundos. Isso não significa que a desinformação tenha desaparecido, mas significa que o monopólio da informação se tornou muito mais difícil.

Nesse ambiente, a credibilidade passa a ser um ativo cada vez mais valioso. Declarações contraditórias, promessas não cumpridas e frases polêmicas permanecem registradas e podem ser recuperadas instantaneamente.

O impacto de uma fala presidencial ou de uma declaração de uma liderança política não dura apenas algumas horas; ela pode ser compartilhada, editada, reproduzida e reaparecer durante meses ou anos.

Esse fenômeno impõe desafios para todos os grupos políticos, inclusive para o governo federal.

Diversos levantamentos de opinião têm apontado dificuldades relacionadas à avaliação da gestão, à confiança do eleitorado e à percepção da situação econômica. Esses indicadores merecem atenção porque costumam influenciar diretamente o humor do eleitor.

Outro aspecto que merece reflexão é o excesso de confiança que frequentemente acompanha determinados ciclos políticos.

A história eleitoral demonstra que favoritismo em pesquisas não garante vitória nas urnas. Campanhas são dinâmicas, acontecimentos inesperados surgem e o comportamento do eleitor pode mudar rapidamente.

O principal erro de qualquer grupo político é acreditar que a disputa já está decidida antes da abertura das urnas. A política continua sendo, acima de tudo, uma atividade humana, sujeita a emoções, percepções, expectativas e frustrações.

ALERTA

A eleição de 2026 poderá ser definida menos pelos discursos tradicionais e mais pela capacidade de compreender esse novo eleitor conectado, desconfiado, independente e cada vez menos disposto a aceitar versões únicas dos fatos.

Ignorar essa transformação pode custar caro. Não apenas para a esquerda ou para a direita, mas para qualquer projeto político que insista em enxergar o eleitorado de hoje com as lentes do passado.