Histórico dos últimos dez anos mostra que levantamentos são retratos do momento, mas metodologia, rejeição e voto útil podem alterar completamente o cenário eleitoral e o cenário está indefinido
As pesquisas eleitorais voltaram ao centro do debate político após a divulgação, nesta segunda-feira (27), do mais recente levantamento BTG/Nexus, que mostra um cenário de forte equilíbrio na disputa presidencial de 2026. Lula, depende de vários fatores para conseguir seu quarto mandato, entre as quais, economia, índices de violência e conter os escândalos envolvendo aliados importantes, como o que atingiu Jaques Wagner, o lider do governo federal no Congresso Nacional.
O estudo aponta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 47% a 43% em um eventual segundo turno. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, o resultado permanece no limite do empate técnico.
A pesquisa também indica disputas apertadas entre Lula e Ronaldo Caiado (PSD), bem como entre Lula e Romeu Zema (Novo). Foram ouvidos 2.004 eleitores, por telefone, entre os dias 24 e 26 de julho, com nível de confiança de 95% e registro no TSE sob o número BR-01489/2026.
O levantamento reacendeu uma discussão recorrente em todas as eleições: até que ponto as pesquisas conseguem prever o resultado das urnas?
Pesquisas são retratos, não previsões
Especialistas em estatística eleitoral lembram que pesquisas de intenção de voto representam um retrato do momento em que foram realizadas. Elas medem o comportamento do eleitor durante o período de coleta de dados, mas não têm como antecipar acontecimentos futuros, como debates, fatos políticos, mudanças econômicas, alianças ou eventos que possam alterar a percepção do eleitor até o dia da votação.
Por essa razão, oscilações registradas entre diferentes levantamentos não significam, necessariamente, erro metodológico.
ERROS QUE MARCARAM ELEIÇÕES RECENTES
Nas últimas duas eleições presidenciais e em diversos pleitos estaduais e municipais, alguns institutos ficaram muito próximos do resultado final, enquanto outros apresentaram diferenças superiores à margem de erro.
Essas divergências alimentaram críticas sobre metodologias, critérios de amostragem e formas de coleta das entrevistas.
Entretanto, especialistas ressaltam que diferenças podem decorrer de fatores como:
período da coleta de dados; perfil da amostra; distribuição regional dos entrevistados; forma de entrevista (telefone, presencial ou internet); tratamento estatístico dos indecisos e dos votos brancos e nulos.
Nenhum desses fatores, isoladamente, determina maior ou menor qualidade da pesquisa. A avaliação costuma depender do desempenho do instituto ao longo de várias eleições.
METODOLOGIAS
Hoje, os principais institutos brasileiros utilizam metodologias distintas.
Alguns trabalham predominantemente com entrevistas presenciais, visitando municípios de diferentes portes.
Outros utilizam entrevistas telefônicas, estratégia adotada pela BTG/Nexus nesta rodada.
Há ainda institutos que utilizam painéis digitais, inteligência artificial e cruzamento de grandes bancos de dados para estimar tendências eleitorais.
Cada metodologia possui vantagens e limitações, motivo pelo qual resultados de institutos diferentes nem sempre coincidem.
A VOZ DO INTERIOR E CAPITAIS SEMPRE ALTERADOS
Outro fator importante é a distribuição geográfica da amostra. Pesquisas que entrevistam eleitores em centenas de municípios frequentemente apresentam resultados diferentes daquelas cuja amostra concentra maior peso nas capitais e regiões metropolitanas.
O comportamento eleitoral brasileiro varia significativamente entre grandes centros urbanos e municípios do interior, especialmente em eleições presidenciais.
Por isso, dois levantamentos realizados praticamente no mesmo período podem apresentar diferenças relevantes sem que isso signifique erro estatístico.
REJEIÇÃO PODE DECIDIR ELEIÇÃO
Mais do que a intenção de voto, analistas consideram a rejeição um dos indicadores mais importantes da campanha.
Na pesquisa BTG/Nexus, os dois principais concorrentes aparecem também como os mais rejeitados: 50% dos entrevistados afirmam que não votariam de forma alguma em Flávio Bolsonaro, enquanto 48% dizem o mesmo em relação a Lula.
Em disputas polarizadas, esse indicador pode influenciar o chamado voto útil, quando eleitores deixam de apoiar seu candidato preferido para votar naquele que consideram ter mais chances de derrotar o adversário que rejeitam.
O QUE REPRESENTA VOTOS BRANCOS, NULOS E INDECISOS
Outro aspecto frequentemente subestimado é o percentual de eleitores que declaram votar em branco, anular o voto ou afirmam que ainda não escolheram um candidato.
Na simulação entre Lula e Flávio Bolsonaro apresentada pela BTG/Nexus, 9% disseram que votariam em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos, enquanto 1% não soube responder.
Embora esses eleitores nem sempre decidam a eleição, uma migração parcial desse grupo para um dos candidatos pode alterar significativamente o resultado final em disputas apertadas.
MUDANÇA DE OPINIÃO
A própria BTG/Nexus mostra que 73% dos entrevistados afirmam já ter decidido seu voto, enquanto 25% dizem que ainda podem mudar de candidato até a eleição.
Esse contingente representa um universo expressivo de eleitores que pode ser influenciado por debates, campanhas, propostas, desempenho econômico e acontecimentos políticos ao longo dos próximos meses.
CAUTELA É A MELHOR OPÇÃO
A experiência das últimas eleições demonstra que alguns institutos apresentaram resultados muito próximos das urnas, enquanto outros registraram diferenças superiores às esperadas.
Essas variações reforçam que nenhuma pesquisa deve ser analisada isoladamente. O acompanhamento da evolução de diferentes levantamentos, realizados por metodologias distintas e em momentos diferentes da campanha, costuma oferecer um quadro mais consistente da disputa eleitoral.
Mais do que prever o vencedor, as pesquisas ajudam a identificar tendências, níveis de rejeição, consolidação do voto e possíveis mudanças no comportamento do eleitorado.
Em um cenário de alta polarização e margens estreitas, como o observado nas eleições de 2026, pequenas oscilações dentro da margem de erro podem ganhar grande relevância política, sem que isso represente, por si só, uma mudança definitiva no rumo da disputa.
CENÁRIO PERMANECE INDEFINIDO A TRÊS MEDES DA VOTAÇÃO
A menos de três meses das eleições presidenciais, o cenário político brasileiro continua sem um favorito consolidado. As pesquisas divulgadas nas últimas semanas mostram disputas apertadas entre os principais pré-candidatos, indicando que a corrida ao Palácio do Planalto permanece aberta e sujeita a mudanças.
O levantamento mais recente da Nexus/BTG, por exemplo, mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em vantagem numérica sobre Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, mas dentro de um quadro de forte equilíbrio. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, o resultado fica no limite do empate técnico.
Simulações contra Ronaldo Caiado e Romeu Zema também apontam diferenças reduzidas. Esse cenário reforça uma característica observada em diversas eleições brasileiras na última década: pesquisas realizadas meses antes do pleito raramente conseguem antecipar com precisão absoluta o resultado final, principalmente quando há elevada polarização e índices expressivos de rejeição entre os principais concorrentes.
Outro elemento que contribui para manter a disputa em aberto é o número de eleitores que ainda admitem mudar de voto. Além disso, votos brancos, nulos, indecisos e o chamado voto útil costumam ganhar importância à medida que a campanha avança, especialmente após debates, propaganda eleitoral e definição das chapas completas.
ALIANÇAS E DESEMPENHO DA ECONOMIA
As alianças partidárias que ainda estão sendo negociadas, a escolha dos candidatos a vice-presidente e o desempenho da economia também podem influenciar significativamente o comportamento do eleitorado nos próximos meses.
A experiência das últimas eleições demonstra que mudanças relevantes ocorreram durante a campanha, alterando o posicionamento dos candidatos nas pesquisas. Em alguns casos, institutos registraram resultados próximos ao das urnas; em outros, houve diferenças superiores à margem de erro, evidenciando que pesquisas devem ser interpretadas como retratos de um momento específico, e não como previsões definitivas.
Diante desse conjunto de fatores, a avaliação de analistas é que a eleição presidencial permanece indefinida. Os levantamentos atuais indicam tendências e níveis de competitividade, mas ainda não permitem afirmar, com segurança, quem chegará ao Palácio do Planalto.
A três meses da votação, a disputa continua aberta, e acontecimentos políticos, econômicos e eleitorais poderão influenciar a decisão de uma parcela importante do eleitorado até o dia da eleição.


