A experiência de ir a um estádio de futebol está passando por uma transformação digital. A obrigatoriedade do reconhecimento facial para acesso a arenas com capacidade superior a 20 mil pessoas, em vigor há quase um ano, marca o fim da era dos ingressos físicos colecionáveis. Agora, o torcedor é identificado pela face cadastrada no momento da compra, liberando a catraca de forma automática.

Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass, uma das empresas desenvolvedoras do sistema, explica que o principal objetivo da biometria facial é a personalização do ingresso. “Com isso, você elimina a possibilidade de esse ingresso ficar circulando entre várias pessoas, de poder emprestar, trocar, enfim. Elimina a fraude também, porque você não tem como copiar a face”, detalhou.

A exigência da biometria nas arenas para mais de 20 mil torcedores está prevista no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, que estabeleceu um prazo de dois anos para a adoção do sistema. O Allianz Parque, em São Paulo, foi pioneiro mundialmente na implementação da tecnologia em todos os seus acessos em 2023. A Bepass, responsável pela solução na arena do Palmeiras, aponta um aumento de quase três vezes na velocidade de entrada do público, além de um crescimento de pelo menos 30% no número de sócios-torcedores do clube.

Marcos Antônio de Oliveira Saturnino, motoboy que compareceu a um clássico no Campeonato Brasileiro Feminino, compartilhou sua experiência: “Venho com minhas filhas. Para nós, é mais prático e rápido, pois compramos [o ingresso] on-line, fazemos a [biometria] facial uma vez e já libera”. Segundo Melchert, houve um aumento notável na presença de famílias, especialmente mulheres e crianças, nos estádios entre 2023 e 2025.

O público geral também tem respondido positivamente. A média de torcedores por jogo no Brasileirão Masculino do ano passado foi de 25.531. Nas partidas realizadas após a obrigatoriedade da biometria facial, a média subiu para 26.513, um acréscimo de cerca de 4%. Clubes como o Santos, mesmo com uma capacidade menor em seu estádio, também adotaram a tecnologia, visando economia e maior segurança.

Marcelo Teixeira, presidente do Santos, destacou os benefícios: “Conseguimos cadastrar um número recorde de pessoas e oferecemos, ao mesmo tempo, mais condições de conforto e segurança para os torcedores que estejam vindo à Vila Belmiro. Nós temos a possibilidade, com o reconhecimento facial, de evitar questões inerentes a ingressos falsos e cambistas”.

A segurança é reforçada pela conexão dos sistemas biométricos com o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Torcedores com pendências jurídicas podem ser identificados e a Polícia acionada, como ocorreu em um clássico na Vila Belmiro, onde três homens foram detidos por mandados de prisão. Iniciativas como o projeto “Estádio Seguro” e o programa “Muralha Paulista” integram esses sistemas a órgãos de segurança pública, resultando na identificação e detenção de foragidos.

Apesar dos avanços, preocupações com a privacidade dos dados coletados persistem. Relatórios como “Esporte, Dados e Direitos” questionam a adoção da tecnologia, apontando riscos à privacidade, vulnerabilização de crianças e adolescentes e o potencial de racismo algorítmico. A vinculação da compra do ingresso à biometria levanta debates sobre a imposição da coleta de dados, impactando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Estudos também alertam sobre a possibilidade de identificações equivocadas. Um caso em Aracaju, onde um torcedor foi erroneamente apontado como foragido, gerou constrangimento. Pesquisas indicam que algoritmos de reconhecimento facial podem apresentar taxas de erro variáveis conforme raça e gênero, com maior incidência em mulheres negras em comparação a homens brancos.

Em resposta às críticas, Melchert assegura que o armazenamento e tráfego dos dados biométricos são feitos de forma vetorizada e que os sistemas buscam minimizar falhas. Ele reconhece que nenhum sistema é 100% infalível, mas defende a precisão do sistema, com um índice de falso positivo estimado em um em um milhão. A expectativa é que a biometria facial se expanda para shows e outros eventos, impulsionada pelos ganhos em segurança, fluidez e combate ao cambismo.