Akitãi e os Caçadores de Mapinguari é um projeto antigo do autor, uma publicação em quadrinhos no estilo graphic novel que chega ao público da nona arte neste mês de dezembro, com o apoio da SEC-Secretaria do Estado do Amazonas, por meio do Edital n°07/2023 pela Lei Paulo Gustavo.

O autor do roteiro e dos desenhos, Romahs, é parintinense e há 14 anos trabalha como roteirista dos estúdios Maurício de Sousa, o que lhe deu uma projeção nacional e destaque no cenário de HQs da região Norte. Mas sempre lhe interessou criar histórias de ficção usando o vasto universo fantástico amazônico, das lendas, mitos e do fascinante manancial cosmogônico das inúmeras etnias indígenas brasileiras.

Para esse trabalho em especial, fez pesquisas que o levaram ao livro Antes o Mundo Não Existia, uma coletênea de narrativas míticas que descrevem a história da criação do mundo sob a gênsese do povo Dessana — habitante da região do Alto Rio Negro, no estado do Amazonas — pelos autores, pai e filho, Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri. A obra, faz a transição da narrativa desse povo, de oral para a escrita, e é considerada o primeiro livro de autoria indígena (e ilustrado por eles mesmos) publicado oficialmente no Brasil. 

Na obra, os autores atribuem a criação do universo a Yebá Beló, deusa que “apareceu do nada” e que é conhecida como A Avó do Mundo. Yebá Beló também criou cinco seres imortais chamados de Os Cinco Trovões e uma criatura menor, mas muito poderosa: Palamin Ngoamân, este último incumbido de criar a humanidade.

A partir dessa premissa e ainda utilizando pesquisas em livros importantes pro processo, como Pandorama Amazonense de João Barros Rodrigues e Lendas em Nheêngatú e em Portuguez do Antônio Brandão de Amorim, Romahs pavimentou o caminho pra criação da saga do menino Akitãi, um típico herói “monomito”, retirado de sua casa e jogado numa aventura fascinante e perigosa, na nossa Amazônia e em outra (uma terra mágica), coexistente a esta.

Atando à sua narrativa lendas populares, como a origem do fogo e da Vitória-Régia, seres lendários como a Matinta Perê, o Mboi Tatá e o Curupira, Romahs criou uma saga ficcional, da qual essa publicação é só a primeira parte: “Basicamente, eu parti do pensamento: E se Deus, diante das consequências das atitudes dos seres humanos, se arrependesse de sua criação? E se essa decepção o levasse a uma tristeza imensa?” Yebá Beló aparentemente se retira do mundo, depois de presenciar a destruição causada pelas primeiras guerras entre os seres humanos. Então coisas estranhas começam a acontecer, chamando a atenção de personagens como Conori e Uaymy, tuchaua e pajé das mulheres guerreiras Icamiabas.

“A forma de narrativa dessa aventura é praticamente um multiplot; personagens se destacam em suas tramas particulares, embora influenciados por uma trama principal. Mas logo se cruzam e se apoiam ou se antagonizam, diante de uma terrível ameaça.”

Esse primeiro capítulo se chama “O demônio das Icamiabas”, tem um pouco mais de 70 páginas e conta o primeiro aparecimento do monstro das lendas amazônicas, Mapinguari (ciclope gigante, com uma boca na barriga, que devora pessoas), que dá nome à saga toda e tem uma grande importância na trama.

Akitãi e os Caçadores de Mapinguari também ousou na sua parte gráfica; a obra tem medidas de um quadrinho grande (28 cm x 20 cm) e capa dura: “A ideia da capa dura é porque apostamos nesse trabalho, temos orgulho do que fizemos nele e também o referenciamos nos quadrinhos europeus, como os bandes dessinées franceses do Asterix, por exemplo, que saem como álbuns luxuosos”.