Com Belém como sede da conferência climática da ONU em 2026, o Brasil tem a chance de mostrar ao mundo que preservar a Amazônia é um esforço coletivo e que o custo da floresta em pé deve ser compartilhado entre as nações.
Belém se prepara para receber, em 2026, a 30ª Conferência das Partes (COP-30), a mais importante reunião mundial sobre mudanças climáticas. Será a primeira vez que uma capital amazônica sedia o evento, e o simbolismo é poderoso: a floresta que há décadas sustenta o equilíbrio climático da Terra torna-se, enfim, o centro do debate internacional.
Mais do que uma escolha logística, a realização da COP na Amazônia representa um chamado político. É o momento de o Brasil afirmar ao mundo que preservar a floresta não é apenas uma responsabilidade local, mas um dever compartilhado entre as nações. O desafio não é apenas manter a floresta em pé: é garantir que isso ocorra de forma justa, sustentável e com benefícios reais para as populações que vivem nela.

O custo de preservar o planeta
O engenheiro e ex-vice-governador do Amazonas Samuel Hanan, em recente artigo publicado na Gazeta do Povo e repercutido pelo Blog do Marcell Mota, reforça um ponto central: o Brasil e os países amazônicos já arcam com um custo econômico e social gigantesco para manter o equilíbrio ambiental global.
Segundo dados do Banco Mundial (2023), a renúncia econômica associada à não exploração dos recursos naturais da Amazônia chega a US$ 317 bilhões por ano. Apesar disso, a região ainda convive com graves desigualdades: ocupa 45% do território nacional, mas responde por apenas 6% do PIB do Brasil. Metade dessa área, ressalta Hanan, é de uso restrito, entre terras indígenas, reservas e unidades de conservação — o que limita o desenvolvimento local e aprofunda o chamado “vazio econômico”.
“Custo local, benefício global”
Essa equação revela um desequilíbrio ético que precisa ser enfrentado na COP-30. “Há uma demanda global pela preservação da Amazônia, mas o custo permanece local”, sintetiza Hanan. Para ele, a comunidade internacional, especialmente os países ricos, precisa reconhecer que o esforço amazônico tem sido feito à custa da renda, da infraestrutura e das oportunidades das populações da região: caboclos, ribeirinhos e povos indígenas que vivem cotidianamente o impacto das restrições ambientais impostas em nome do planeta.
O autor defende que a floresta deve gerar retorno financeiro legítimo aos que a protegem, seja por meio de fundos de compensação climática, seja pela criação de créditos de carbono com base nas áreas preservadas. A proposta é clara: transformar a responsabilidade ambiental em política econômica internacional.
A Amazônia como pauta de desenvolvimento
A expectativa é que o Brasil leve à COP-30 uma agenda propositiva, capaz de unir preservação e prosperidade. Isso inclui políticas de bioeconomia, turismo ecológico, pesquisa científica aplicada, manejo sustentável e valorização do conhecimento tradicional.
Também será fundamental fortalecer o combate ao garimpo ilegal, ao desmatamento e à poluição dos rios amazônicos, medidas que precisam caminhar lado a lado com o incentivo à geração de renda e educação ambiental.
A proposta de Hanan vai além do discurso ecológico: é uma crítica ao desequilíbrio estrutural entre os que financiam a preservação e os que se beneficiam dela. Se o mundo consome o oxigênio, a água e o regime de chuvas que a Amazônia fornece, então manter a floresta viva é um investimento coletivo e não uma doação unilateral do Brasil.
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