Especialista aponta que campanhas estruturadas de doação, como via Imposto de Renda, ainda são pouco exploradas pelo setor corporativo — apesar do alto potencial de impacto.

Durante o Maio Laranja, mês de mobilização nacional pelo enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, empresas de diferentes setores intensificam campanhas de conscientização sobre o tema. Mas, para além da comunicação, especialistas apontam uma lacuna relevante: a dificuldade de transformar esse posicionamento em ações de financiamento e fortalecimento das redes de proteção.

Apesar do avanço do debate público sobre a proteção de crianças e adolescentes, o financiamento de iniciativas voltadas à causa ainda está aquém do necessário. Um dos caminhos mais diretos — e pouco utilizados — é a destinação de parte do Imposto de Renda para projetos aprovados pelos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente, mecanismo previsto em lei e acessível a milhões de brasileiros.

“O Brasil não tem um problema de falta de recurso para causas sociais, mas sim de mobilização”, afirma Mayara Cabeleira, da ‘Abrace uma Causa’ e especialista em estratégias de captação de recursos e atuação junto a empresas. “No caso da proteção à infância, existe uma ferramenta concreta, regulamentada e de alto potencial que ainda é subutilizada, tanto por pessoas físicas em geral, quanto por empresas na mobilização dos seus públicos.”

Segundo ela, o Maio Laranja escancara uma contradição recorrente no setor corporativo. “As empresas já avançaram muito no discurso e no posicionamento institucional. Mas ainda há um caminho importante para estruturar ações consistentes, que conectem engajamento interno, educação dos colaboradores e direcionamento efetivo de recursos.”

Algumas iniciativas já demonstram que esse caminho é possível. É o caso de programas corporativos que mobilizam colaboradores para a destinação de 6% do Imposto de Renda devido para projetos sociais. Um exemplo concreto é o programa IR Cidadão, do Itaú, que combina comunicação, tecnologia e suporte aos colaboradores para viabilizar doações incentivadas (com abatimento fiscal) de forma simples e segura.

Modelos como esse mostram que é possível transformar uma pauta institucional em impacto mensurável, ao direcionar recursos para projetos que atuam na garantia de direitos de crianças e adolescentes em diferentes territórios do país. O desafio agora é escalar esse tipo de iniciativa, implicando sair da lógica pontual, concentrada no período de declaração, para a construção de programas contínuos de mobilização dentro das empresas.

“Quando a mobilização é planejada de forma contínua, o resultado é completamente diferente. A gente deixa de falar de uma ação pontual e passa a construir uma cultura de doação dentro das empresas”, afirma Mayara. “É isso que permite transformar uma pauta como o Maio Laranja em impacto real — e não apenas em visibilidade.”

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