O vice-presidente Geraldo Alckmin esclareceu que a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, não se trata de uma retaliação aos Estados Unidos, mas sim de um mecanismo para corrigir o que o governo brasileiro considera uma situação de injustiça comercial. “A ideia não é retaliação. Diz que olho por olho pode acontecer de os dois ficarem cegos. A reciprocidade é: nós estamos sendo injustiçados e queremos corrigir isso”, declarou Alckmin em entrevista após uma reunião com representantes de setores industriais afetados pelas novas tarifas impostas pelo governo americano.

A legislação, segundo Alckmin, oferece instrumentos para uma resposta institucional e legal, mediante consultas e audiências públicas, caso seja necessário. A declaração surge em meio a preocupações de empresários brasileiros sobre possíveis retaliações. O governo, em conjunto com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, está finalizando um pacote de apoio para os setores impactados e buscando ativamente novos mercados para as exportações nacionais.

A estratégia de resposta do Brasil às sobretaxas americanas está estruturada em três frentes principais: apoio financeiro às empresas, diversificação de mercados e diálogo contínuo com os setores produtivos para mapear os impactos. As tarifas impostas pelos Estados Unidos preveem uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, com a possibilidade de um acréscimo de 12,5%, afetando aproximadamente 18% das exportações destinadas ao mercado americano, o que representa cerca de US$ 7,4 bilhões.

Para mitigar os efeitos, o governo estuda medidas como a oferta de crédito para capital de giro e investimentos através do programa Brasil Soberano. Há também a avaliação da flexibilização temporária das regras do regime de drawback, que isenta impostos sobre insumos para exportação, permitindo que exportadores que percam mercado nos EUA cumpram seus compromissos sem perder benefícios fiscais. Ajustes nas exigências de manutenção de empregos para setores que recebam apoio emergencial também estão em pauta.

Paralelamente, a ApexBrasil intensificará a prospecção de novos destinos comerciais, com foco em mercados como Índia, México, Singapura, Japão e países do Sudeste Asiático. O avanço das negociações de acordos comerciais entre Mercosul e União Europeia, Mercosul e EFTA, e Mercosul e Singapura também são vistos como cruciais para reduzir a dependência do mercado estadunidense, especialmente para produtos de maior valor agregado.

Os setores mais expostos às novas tarifas incluem eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, autopeças, calçados e outros produtos industriais. O mercado americano é o principal destino das exportações brasileiras de eletroeletrônicos e responde por cerca de um quarto das vendas externas de máquinas e equipamentos.

O governo trabalha com um cronograma apertado para definir as ações. Uma definição dos EUA sobre a aplicação cumulativa de 12,5% adicionais em tarifas é esperada para esta sexta-feira, enquanto a sobretaxa de 25% para mercadorias já em trânsito entra em vigor em 29 de julho. Até lá, o Ministério do Desenvolvimento busca consolidar um diagnóstico dos impactos com representantes de diversos setores industriais, além de planejar uma missão oficial à Índia para explorar oportunidades comerciais.