A alma não campeia solitária na arte de poemar e o corpo se tornou fonte de inspiração para as mais profundas divagações do espírito poético.

As prisões que submetem o corpo à útil docilidade encontraram na poesia uma forma de fuga e resistência . Vigiar e punir para dominar não inspirou o poeta. Foi na beleza do ser que ele galgou montanhas e passeou entre jardins para expressar os movimentos que encantam.

“Teu corpo claro e perfeito,
– Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa… flor de laranjeira…”

Nos presenteou Manuel Bandeira.

Mas o poeta também encontrou no corpo as palavras para sua fina ironia.

Quintana ironizou, brincou, filosofou…

“O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…
Nem mudar água pura em vinho tinto…
Milagre é acreditarem nisso tudo!”

O corpo está presente na história, nas imolações cruéis da opressão religiosa, nas modelagens das fábricas de montagem, no jugo misógino, mas a poesia foi sua redentora.

Drummond foi profundo e entrelaçou o corpo a alma.

“A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.”

Cabelos, mãos, bocas, olhos, movimentos, o andar, a respiração, os mais sensíveis gestos de amor, o poeta observou e fez do corpo uma constelação inspiradora.

Escreveu Fernando Pessoa

“As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) engulos
E o teu perfil princesa no degredo…”

E foi Arnaldo Antunes que perambulou pela breve anatomia do corpo.

“O corpo existe e pode ser pego.
É suficientemente opaco para que se possa vê-lo.
Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo.
O corpo existe porque foi feito.
Por isso tem um buraco no meio.
O corpo existe, dado que exala cheiro.
E em cada extremidade existe um dedo.
O corpo se cortado espirra um líquido vermelho.
O corpo tem alguém como recheio.”

E o corpo feminino deixou de ser objeto e a poesia o descobriu na sua plenitude, sem o desejo que vulgariza, apenas como valor de quem ama e pode ser amada.

Neruda:

“Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.”

O poeta libertou o corpo ao lhe dar alma, espírito e vida, sem a docilização amarga que pune e oprime.

O corpo se fez liberdade na poesia.

Lúcio Carril
Sociólogo.