Especialista avalia que a inteligência artificial será o principal campo da disputa estratégica entre as duas potências

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Fotos: Paulo Bareta (Divulgação XP)

São Paulo, julho de 2026 – A disputa entre Estados Unidos e China deixou de ser apenas econômica ou comercial e passou a envolver tecnologia, inteligência artificial, soberania digital e segurança nacional. Para o historiador Niall Ferguson, esses fatores definirão a nova ordem global nas próximas décadas. A avaliação foi feita durante painel na Expert XP 2026, ao lado do CIO da XP Inc., Artur Wichmann.

Segundo Ferguson, embora a tecnologia transforme economias e sociedades, a competição entre grandes potências continua sendo o principal motor das relações internacionais. “Hoje sabemos que estamos caminhando para uma segunda Guerra Fria entre duas superpotências, os Estados Unidos e a China. Essa será a relação geopolítica que definirá, pelo menos, os próximos 50 anos”, afirmou. Para o especialista, ao contrário do que muitos analistas defendem, a história não segue ciclos previsíveis, mas se comporta como um sistema complexo, sujeito a choques inesperados, como crises financeiras, pandemias e conflitos.

IA amplia disputa entre EUA e China

Na avaliação de Ferguson, a inteligência artificial tornou-se um ativo estratégico para a segurança nacional e deixou de ser apenas um tema tecnológico. O historiador afirmou que os Estados Unidos abandonaram a ideia de uma regulação mínima para o setor e passaram a enxergar os modelos mais avançados como uma questão estratégica. Ao mesmo tempo, alertou para a aceleração da competição com a China e para o avanço dos modelos chineses de código aberto.

“Os dias da regulação zero para a inteligência artificial acabaram”, disse. Segundo ele, empresas e governos terão de decidir como incorporar a tecnologia e qual ecossistema pretendem adotar. “Toda empresa, inclusive no Brasil, terá de decidir como incorporar IA ao seu negócio e se seguirá o caminho americano ou o chinês.”

O historiador também avaliou que a soberania digital dependerá cada vez mais da capacidade de desenvolver infraestrutura própria. “Não é possível ter soberania digital sem provedores próprios de nuvem, fabricantes de semicondutores e modelos próprios de linguagem. No fim das contas, teremos um mundo da inteligência artificial dominado por duas superpotências”, afirmou.

Taiwan concentra principal risco geopolítico

Para Ferguson, o ponto de maior tensão da nova ordem global não está na guerra da Ucrânia, mas no Estreito de Taiwan. Segundo ele, a ilha concentra a produção da maior parte dos semicondutores mais avançados do mundo e qualquer interrupção nesse fluxo teria impactos imediatos sobre a economia global.

Diante desse contexto, o maior risco não seria uma invasão militar em larga escala, mas uma tentativa gradual de Pequim de assumir o controle sobre o comércio e as exportações da ilha. “Esse pode ser o momento mais perigoso da Segunda Guerra Fria”, afirmou. 

China e Rússia enfrentam fragilidades estruturais

Ao analisar o cenário geopolítico, Ferguson afirmou que a força da China costuma ser superestimada. Para ele, o país enfrenta desafios estruturais semelhantes aos observados em outros regimes autoritários do século XX, como o declínio demográfico e a concentração de poder político. “Esses sistemas não são fortes. Na verdade, são bastante frágeis”, disse.

O historiador também classificou a guerra na Ucrânia como um sinal do enfraquecimento da Rússia. Segundo ele, o conflito não representa o renascimento do poder russo, mas evidencia as dificuldades militares e econômicas enfrentadas pelo país. “O que estamos testemunhando não é o renascimento da Rússia imaginado por Vladimir Putin, mas os estertores finais do Império Russo”, afirmou.

Expert XP 2026

O painel integrou a programação da Expert XP 2026, realizada entre os dias 23 e 25 de julho. Em sua 16ª edição, o evento reúne especialistas nacionais e internacionais para discutir os principais desafios econômicos, tendências globais e perspectivas para os mercados financeiros.