A eleição para o próximo governador do Amazonas terá entre seus maiores desafios uma realidade que se tornou visível nas ruas, nos bairros e até mesmo nas fronteiras do estado. Trata-se do avanço das facções criminosas e a disputa por territórios estratégicos para o tráfico internacional de drogas na Amazônia.

Nos últimos anos, organizações criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) ampliaram sua influência em diversas regiões do Amazonas.

Não só em nível estadual, mas principalmente no âmbito do governo federal, o próximo preesidente terá que encarar esse grande desafio, retomar os territórios e sufocar o crime organizado, hoje considerado organizações terrorista.

A presença dessas facções não se limita mais ao tráfico de drogas. Segundo informações levantadas por autoridades de segurança, os grupos passaram a atuar em diversas atividades ilegais, incluindo extorsão, lavagem de dinheiro, cobrança de dívidas, agiotagem e controle territorial.

Em vários bairros de Manaus, moradores relatam a existência de regras impostas por criminosos, que determinam horários de funcionamento de estabelecimentos, circulação de pessoas e até a resolução de conflitos locais.

Em algumas áreas, o chamado “tribunal do crime” teria substituído a autoridade do Estado, aplicando punições violentas contra quem desobedece às ordens das organizações. Todos sabem sobre o domínio territorial, mas o cuidado é permanente em falar sobre o assunto.

Vídeos divulgados frequentemente nas redes sociais mostram cenas de tortura, agressões e execuções atribuídas a esses tribunais clandestinos. As imagens chocam pela brutalidade e demonstram o nível de intimidação imposto às comunidades dominadas pelo crime organizado.

AS FRONTEIRAS VULNERÁVEIS

O Amazonas possui uma das maiores extensões de fronteira do país, fazendo limite com a Colômbia, Peru e Venezuela. É a chamada tríplice-fronteira. Parte dessas regiões está próxima de importantes áreas produtoras de cocaína da América do Sul, transformando rios e rotas fluviais em corredores estratégicos para o narcotráfico internacional.

A vasta floresta amazônica, aliada à dificuldade de fiscalização permanente, favorece a movimentação de drogas, armas e recursos financeiros ligados ao crime organizado.

Autoridades nacionais e internacionais estão de olho em possíveis conexões entre narcotraficantes que atuam na Amazônia e organizações criminosas estrangeiras.

Até o momento, não há confirmação oficial de atuação operacional da organização terrorista Al-Qaeda na região, mas órgãos de inteligência monitoram constantemente possíveis vínculos entre grupos criminosos transnacionais e redes de financiamento ilícito.

CRISE SOCIAL NAS RUAS

Os reflexos do tráfico são visíveis nos centros urbanos do Amazonas. O aumento do consumo de drogas tem contribuído para o crescimento da população em situação de vulnerabilidade e dependência química.

Em diversas áreas de Manaus, cenas de usuários consumindo entorpecentes em vias públicas tornaram-se frequentes. O problema deixou de ser apenas uma questão policial, transformando-se também em uma grave crise de saúde pública.

Não há estrutura adequada para o tratamento de milhares de dependentes químicos que perambula pelas ruas da capital e na maioria dos municípios do Amazonas.

Famílias inteiras convivem diariamente com os impactos da dependência química, enquanto comunidades enfrentam o aumento da violência associada ao comércio ilegal de drogas.

AGIOTAGEM

Outro fenômeno que preocupa as autoridades é a entrada de integrantes de facções no mercado clandestino de empréstimos ilegais.

Operações policiais recentes revelaram e identificaram grupos criminosos envolvidos em esquemas de agiotagem, utilizando ameaças, intimidação e violência para cobrar dívidas.

Segundo investigadores, em alguns casos os devedores sofrem perseguições constantes, têm bens tomados ilegalmente e são submetidos a constrangimentos públicos como forma de pressão para pagamento.

Numa das últimas operações contra esse tipo de crime, investigados e presos ameaçavam até agentes públicos do Tribunal de Justiça do Amazonas.

DESAFIO PARA O FUTURO GOVERNADOR

O próximo governador do Amazonas precisará colocar o combate às facções criminosas entre as prioridades absolutas de governo. O tema segurança pública, por sinal, ganhou notoriedade recentemente, após decisão do governo dos EUA classificarem as facções criminosas brasileiras PCC e CV, como ‘organizações terroristas’.

As medidas defendidas incluem o fortalecimento das forças policiais, ampliação do monitoramento de fronteiras, integração com órgãos federais, investimentos em inteligência, combate à lavagem de dinheiro e ações sociais voltadas à prevenção do recrutamento de jovens pelo crime organizado.

Mais do que uma disputa eleitoral, a próxima eleição poderá representar uma escolha sobre qual modelo de enfrentamento será adotado para conter organizações criminosas que hoje desafiam o poder público e impactam diretamente a vida de milhares de amazonenses.

Enquanto o crime amplia sua influência sobre territórios estratégicos, a ausência de uma resposta firme e coordenada poderá permitir que as facções fortaleçam ainda mais seu poder econômico e territorial nos próximos anos.