Enquanto a seleção francesa de futebol se prepara para um confronto decisivo contra a Espanha na semifinal da Copa do Mundo 2026, com vídeos mostrando um ambiente descontraído nos treinos, o cenário fora de campo é marcado por um tom sério de repúdio a declarações racistas direcionadas aos jogadores franceses, conhecidos como ‘Les Blues’. A partida, que ocorrerá nos Estados Unidos, definirá um dos finalistas do torneio.
O foco das atenções tem sido o aumento de comentários discriminatórios ao longo da competição. Um exemplo notório foi um artigo publicado pelo ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que, embora elogiando o alto nível do plantel francês, questionou a origem dos jogadores, fazendo referência depreciativa à sua ascendência, frequentemente ligada a imigrantes de ex-colônias africanas e que reflete a diversidade da França contemporânea.
A manifestação de Rajoy gerou reações contundentes. Jogadores espanhóis como Pau Cubarsí e Borja Iglesias, além do atual primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, repudiaram publicamente a declaração. Sánchez, em uma rede social, classificou a afirmação como uma ‘vergonha’ e declarou: ‘que vença o melhor e que perca o racismo’.
Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, associa o aumento desses comentários à ascensão da extrema-direita em contextos políticos globais, que encorajaria a expressão de preconceitos. Ele também aponta o anonimato proporcionado pela internet como um fator que facilita a proliferação de ataques racistas.
Dados da Federação Internacional de Futebol (Fifa) corroboram essa percepção, indicando um aumento significativo de publicações abusivas nas redes sociais durante esta Copa, com uma parcela expressiva delas de caráter racial, superando os números da edição anterior.
Carvalho destaca que a própria Fifa tem implementado medidas de combate ao racismo, como o Protocolo Vini Jr. Desde o início do torneio, jogadores foram expulsos com base neste protocolo por ações que poderiam ocultar provas de discriminação. Ele ressalta que a mudança de postura, com o apoio de jogadores, federações e autoridades, está transformando tanto o esporte quanto a sociedade.
O diretor do observatório também mencionou o caso da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que proferiu insultos racistas contra Kylian Mbappé. O jogador francês respondeu, criticando a conduta da parlamentar. A Federação Francesa de Futebol e autoridades francesas apoiaram Mbappé, e a federação acionou a Procuradoria francesa, que abriu um inquérito por injúria agravada e incitação ao ódio. A federação francesa classificou as declarações como ‘desprezíveis e inaceitáveis’, sinalizando que ‘não estamos mais deixando os casos passarem batido’.


