A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central gerou forte reação negativa em importantes setores da economia brasileira. Representantes da indústria, construção civil e centrais sindicais expressaram preocupação com os impactos da decisão sobre o crescimento econômico, o acesso ao crédito e a geração de empregos no país.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera o patamar atual dos juros excessivamente alto, argumentando que ele onera a economia e ignora a recente desaceleração da inflação. Ricardo Alban, presidente da CNI, defendeu que o Banco Central deveria ter iniciado um ciclo de redução da taxa básica. Segundo a entidade, a inflação corrente e as expectativas estão se alinhando à meta, com o IPCA fechando o ano passado em 4,26% e projeções indicando convergência para 3% nos próximos anos. No entanto, a taxa real de juros permanece em cerca de 10,5% ao ano, significativamente acima da taxa neutra estimada pelo próprio BC.

O setor da construção civil também manifestou apreensão. Renato Correia, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), alertou que juros elevados dificultam o crédito imobiliário, diminuem a procura por novos empreendimentos e inviabilizam projetos. Ele ressaltou que uma política monetária restritiva afeta toda a cadeia produtiva, com consequências duradouras para o emprego e a renda.

Em uma análise mais ponderada, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) atribuiu a decisão do Copom à cautela diante de incertezas fiscais e externas. O economista Ulisses Ruiz de Gamboa observou que, apesar da desaceleração econômica, a inflação e suas expectativas ainda superam a meta. Ele aguarda o comunicado do Copom para avaliar se haverá sinalização de início de cortes futuros.

As centrais sindicais reagiram de forma mais contundente. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) criticou a manutenção da Selic, que mantém o Brasil no topo do ranking mundial de juros reais e penaliza a população ao encarecer o crédito, reduzir o consumo e, consequentemente, os empregos. Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT, destacou que cada ponto percentual da Selic adiciona aproximadamente R$ 50 bilhões aos gastos públicos com juros da dívida.

A Força Sindical classificou a decisão como uma “irresponsabilidade social”, acusando o Banco Central de priorizar a especulação financeira em detrimento do setor produtivo. Miguel Torres, presidente da entidade, apontou que a política monetária atual restringe o crédito, aumenta o endividamento das famílias e impede o desenvolvimento econômico.

Apesar das críticas generalizadas, o Copom optou pela quinta vez consecutiva por manter a Selic em 15% ao ano, o nível mais alto desde 2006. A decisão estava alinhada às expectativas da maioria dos analistas de mercado, em um contexto marcado por inflação ainda acima da meta, desafios fiscais e riscos no cenário internacional.