A resiliência do mercado de trabalho brasileiro, que tem mantido a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos, deve-se à robusta demanda por trabalhadores em diversos setores da economia. Essa diversificação na geração de empregos tem sido crucial para sustentar a estabilidade, mesmo diante de fatores externos como as taxas de juros elevadas, segundo avaliação de Adriana Beringuy, coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua), divulgados nesta quinta-feira (28), revelam que a taxa de desemprego fechou o trimestre encerrado em abril em 5,8%. Este índice representa uma queda de 0,8 pontos percentuais em comparação ao mesmo período de 2025, quando registrou 6,6%. Em relação ao trimestre anterior (novembro de 2025 a janeiro de 2026), houve um aumento de 0,4 pontos percentuais.

Adriana Beringuy destacou que a sustentação do mercado de trabalho se dá pela ampla oferta de vagas em diferentes áreas. “Hoje, não é só o setor público que contrata e nem só o setor privado. Esse espalhamento e essa difusão ajuda nessa resiliência do mercado de trabalho”, explicou. Ela ressaltou que, se a demanda por empregos fosse concentrada em poucas atividades, como apenas o comércio ou o informal, o mercado estaria mais suscetível a flutuações e teria menor sustentabilidade.

“Na medida em que consegue ter vários setores demandando trabalhadores, isso dá sustentabilidade ao mercado de trabalho. Isso ajuda a amortecer determinados efeitos até do ponto de vista macroeconômico, que é a questão das taxas de juros”, complementou a coordenadora.

A pesquisa também apontou que o rendimento real habitual médio de todos os trabalhos alcançou R$ 3.732, demonstrando estabilidade no trimestre e um crescimento de 5,3% ao longo do último ano. A massa de rendimento real habitual totalizou R$ 377 bilhões, mantendo-se estável no trimestre e com um acréscimo de 6,5% (ou R$ 22,9 bilhões) em relação ao ano anterior.

Diante do cenário de juros altos, a manutenção da ocupação e o crescimento da renda são essenciais para sustentar o consumo, que se torna mais caro. “Mesmo diante desse rendimento crescente, as pessoas precisam estar imbuídas no mercado de trabalho para dar conta do consumo. Com taxas de juros elevadas, o consumo fica mais caro”, pontuou Beringuy. Ela acrescentou que, mesmo com o aumento de rendimentos, impulsionado pelo controle inflacionário ou pela valorização do salário mínimo, é fundamental manter um bom nível de ocupação para que o consumo continue viável.

A coordenadora também frisou a importância de um mercado de trabalho que consiga reagir a choques macroeconômicos adversos, como a elevação das taxas de juros, mantendo sua sustentabilidade. “É de fato um momento bastante interessante que a gente está vivendo, que a despeito dessas variáveis macroeconômicas nem tão favoráveis, ainda assim, o mercado se mantém, tanto do ponto de vista quantitativo, em que a gente vê uma população ocupada bem significativa, e também nos ganhos de rendimento do trabalhador”, observou.

Em relação a efeitos externos, como a guerra no Oriente Médio, a coordenadora indicou que seu impacto ainda não é perceptível no mercado de trabalho, sendo mais visível na variação dos preços dos combustíveis. A PNAD-Contínua mensal de abril também mostrou que o número de empregados com carteira assinada no setor privado (excluindo domésticos) manteve-se estável em 39,3 milhões. Já os trabalhadores sem carteira, que somam 13,3 milhões, também apresentaram estabilidade.

O setor público registrou 12,9 milhões de empregados, com uma expansão anual de 3,4%. Trabalhadores por conta própria (26 milhões) ficaram estáveis no trimestre, mas cresceram 2,3% no ano. Empregados domésticos totalizaram 5,4 milhões, estáveis no trimestre, mas com queda de 4,7% no ano. A população fora da força de trabalho (66,5 milhões) ficou estável no trimestre, mas cresceu 1,6% no ano. O número de desalentados (2,6 milhões) apresentou estabilidade trimestral e uma redução de 15,3% no ano.